Antes de mais, uma boa pergunta: Saint-Étienne porquê? Porque é mais uma cidade escondida no mapa de França que está à distância de um voo da Ryanair - o mais parecido que temos com as botas das sete léguas. Mas sobretudo porque Saint-Étienne não quer ser mais uma: quer recuperar o tempo perdido e deixar os visitantes com água na boca e com a sensação de que caem coisas do céu.
Um bom stéphanois sabe que não vive propriamente na Cidade-Luz, mas também é o primeiro a provar que Saint-Étienne, uma cidade de protótipos e de inventores, de visionários e de criativos, merece o benefício da dúvida.
Provas? Simples. Saint-Étienne é muito mais do que uma cidade industrial que parou no tempo e que agora procura dar corda aos sapatos. É familiar, é curiosa, é um amuse-bouche e uma incrível colecção de museus e de salas de espectáculos que por si só valem a ponte aérea com o Porto. Se nós temos a Casa da Música, eles exibem o Zénith, a nave espacial que o arquitecto Norman Foster fez aterrar em 2008. Se nós passeamos no Museu de Serralves, eles gabam o Museu de Arte Moderna, cor de carvão, programação de ouro. Se nós contamos a história do Vinho do Porto, do carro eléctrico e da imprensa, eles dão vida aos passementiers, os tecelões que tratam os teares como altares, e a seguir descem connosco ao Inferno das minas de carvão e ainda abrem os gavetões para revelar os segredos das grandes invenções locais: luxuosas fitas decorativas, rocambolescas bicicletas e armas de fogo de filmes de acção.
Mas Saint-Étienne não é só SaintÉtienne. Conhece-se de fora para dentro. São os castelos e as paisagens do Loire - um dos cem mais belos desvios de França, na opinião do Guia Michelin -, são as esculturais tábuas de queijos e a comida que fala francês, é a simplicidade dos recantos e do design que precisa de um guia à parte (assinale a vermelho Firminy no mapa; não falhe a minimal e complexa Cidade do Design; descubra o segredo de le pavé de la route bleue na "biblioteca" do chocolate Weiss; passe à porta do Centro Cultural Boris Vian e da sala de espectáculos Le Fil; circule no quartier Tardy), é uma cidade que ao nível do posicionamento da arte contemporânea tem Glasgow e Bilbau como referências.
Com sorte, também apanhamos com coisas que caem do céu - se nevar, ainda melhor. Os cavalos alados no carrossel da Praça do Hôtel de Ville, o karaoke Le Balafon escondido na Rua Dormoy e o alfarrabista Tropique, no número 24 da Rua Pierre Bérard. "Pelo menos já conhecem a mais bela e mais modesta livraria de Saint-Étienne", diz a proprietária Christiane Ribeyre, que prefere os livros às viagens.
Os museus a não perder
Museu da Mina
Abriu em 1991, no mesmo ano em que o realizador Eric Barbier usou as instalações da mina Couriot como cenário do filme Le Brasier. Hoje é a mais fiel impressão digital da extracção do carvão na região de Saint-Étienne entre 1860 e 1983. O Museu da Mina é um regresso às profundezas, às adversidades dos mineiros, marcados por turnos de oito horas sem a luz do sol e por tatuagens que nunca pediram, infligidas pelo pó do carvão em contacto com as feridas abertas. Às tantas, um passeio nas instalações da mina Couriot assemelha-se a uma penosa caminhada em Auschwitz. Para isso muito contribui a passagem pelo duche colectivo e pela adjacente "sala dos enforcados", onde estão suspensos por correntes mais de 1100 fatos, capacetes, tamancas de madeira, espelhos e sabões - a lúgubre técnica do cesto suspenso permitia ganhar espaço no solo e secar com mais rapidez a roupa no fim do turno. É apenas uma das muitas lições da mina, que no seu melhor período produziu três mil toneladas de carvão por dia e empregou aproximadamente 1500 mineiros (algumas dezenas de portugueses), número largamente ultrapassado no período pós-guerra. A visita guiada leva-nos através da sala onde eram guardadas e testadas as lâmpadas antes de nos conduzir ao áspero elevador, que se detém na galeria da mina, fielmente reconstituída através das diversas etapas e perigos do trabalho no subsolo. O regresso à superfície é um alívio.