Fugas - Viagens

Rungis, um mercado à grande e à francesa

Por Fortunato da Câmara (texto e foto)

Ter um mercado de frescos do tamanho do Mónaco é uma proeza que faz jus à expressão popular do título desta reportagem. Em Rungis, o tamanho da oferta corresponde à procura incessante que os franceses sempre mantiveram por produtos de qualidade. Viagem ao reino das iguarias, o maior mercado de frescos do mundo.

Paris dorme. O ponteiro dos minutos passou há pouco pelas três horas da madrugada. Ao contrário de algumas das grandes metrópoles ocidentais, o coração da cidade repousa. Junto à câmara municipal, um punhado de adolescentes diletantes diverte-se a fotografar o imponente edifício, alheados da errância dos sem-abrigo que por ali dormem, junto às paragens de autocarro.

Para a Fugas, o motivo desta deambulação nocturna tão pouco turística era a visita ao Mercado Internacional de Rungis, o maior mercado de frescos do mundo, situado a pouco mais de uma dúzia de quilómetros do centro da cidade. As instruções do gabinete de imprensa para a nossa visita eram simples e objectivas: "Convém chegar antes das quatro da manhã para se sentir melhor o ambiente e o movimento do lugar." O requisito parecia duro de cumprir quando o despertador tocou, mas noite dentro viria a revelar-se uma preciosa sugestão para se conseguir ver com alguma calma, e muita resistência física, este mundo à parte da gastronomia parisiense.

À nossa espera estavam 232 hectares de frutas, legumes, queijos, carnes, peixes, mariscos e produtos seleccionados como foie gras ou caviar, tudo numa área semelhante à do principado do Mónaco. As comparações com o micro-estado do Sul de França ficam por aqui. Rungis é um local de trabalho com um aspecto industrial, reservado apenas a profissionais do comércio e da hotelaria. No entanto, se há epíteto real que lhe assenta na perfeição é o de "reino das iguarias". Uma espécie de paraíso pelo qual um gastrónomo inveterado anseia a vida inteira e cujos tesouros muito chefes gostariam de ter como matéria-prima para transformarem sonhos gulosos numa memorável realidade.

Antes das 4h00 já estávamos a entrar no quarteirão das flores. Visita rápida apenas para cruzar o equivalente a um imenso jardim coberto situado no topo norte do complexo. A partir daqui iniciou-se uma jornada sem metragem onde a surpresa das pequenas descobertas camuflou o palmilhar consecutivo de cada pavilhão. Só a área de frutas e legumes ocupava nove, cada um deles com mais de 5000m2. Para quê contar distâncias quando nos deparamos com uma mãocheia de variedades de tomate, de cores, formas e tamanhos tão cativantes quanto diferentes. Desde o roxo e doce kumato ao gordo coração-de-boi, com as suas pronunciadas e vistosas caneluras.

As caixas seguintes rivalizam em exotismo. Pequenas cuvetes de frutos do bosque exibem delicadas framboesas amarelas e cor-derosa, que retiram protagonismo às clássicas, no seu vermelho pálido. Amoras carnudas e groselhas com a tradicional cor rubra, ainda mais viva quando comparada com outras em tons pérola. A disputa pela diferença de aspecto era ganha pela groselha à maquereau (para carapau), usada num molho agridoce que acompanha o peixe, e que se assemelha a bagos de uva branca estriados.

O desfilar de especialidades prossegue, com cogumelos boletus, morilles, cantharelles, todos de cultura e curiosamente importados da Turquia, já que a procura é muito superior à oferta local. Pequenos feixes de espargos selvagens, como se de espigas de trigo se tratasse, dão mais um apontamento sobre o que se pode encontrar de diferente, já que a lista é imensurável. Apetece dizer que ali há de tudo o que se possa imaginar em quantidade e qualidade, talvez haja quase tudo... Consoante os produtos são retirados das câmaras de frio e expostos, a tentação é procurar a origem no rótulo. Como seria de esperar, a proveniência das diversas regiões francesas é recorrente, mas também há bens alimentares de ex-colónias como Martinica e Tunísia, ou de lugares tão díspares como o Chile ou a Nova Zelândia.

--%>