Fugas - Viagens

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Rungis, um mercado à grande e à francesa

À procura de Portugal

A noite ainda vai a meio e começa a crescer a expectativa de encontrar uma etiqueta a dizer "Origine: Portugal". Um dos longilíneos corredores está ocupado apenas por uma empresa. De um lado, legumes de toda a espécie, no oposto desfilam frutas locais e exóticas. Perante um sortido desta envergadura, perguntei a um dos vendedores acerca da existência de produtos portugueses. Num tom profissional, atirou o olhar em frente, sem levantar a cabeça das listagens que estava a conferir, e disse: "Fale ali com aquele senhor de bigode." A convicção da resposta era um bom prenúncio.

De bata azul, ao estilo merceeiro tradicional, um homem na casa dos 50 anos dava ordens em várias direcções e orientava compradores - era o responsável da parte das frutas. A resposta à nossa demanda por matéria-prima portuguesa foi imediata: "Eu sou de Chaves e casei em Évora. Trabalho aqui há 36 anos." Manuel Rocha, transmontano de 53 anos, confirmou-nos que havia muitos portugueses a trabalhar no mercado, mais de dez por cento dos cerca de 13.000 que ali trabalham diariamente. Em relação aos produtos, os números não chegam a um por cento. Só esporadicamente é que aparecem morangos e algumas alfaces.

"Aqui a qualidade tem de ser permanente. Não é que o morango português seja inferior, até é mais saboroso que o espanhol, mas a regularidade é muito importante.", afirma, sem rodeios. Manuel Rocha diz que muitos comerciantes encomendam directamente de Portugal enchidos e bacalhau para venderem nas suas lojas. A grande maioria dos produtos não passa por ali. No entanto, confessa que gostava de ver mais produção nacional em Rungis.

A empresa onde trabalha é uma das maiores no seu sector. Foi pioneira na comercialização de minilegumes. Compra e vende para os quatros cantos do globo e tem uma facturação média de €44 milhões. Para qualquer país vender aqui é essencial ter qualidade e bom preço de forma regular, insiste.

Enquanto falamos, o fluxo de pessoas e carga vai aumentando. O movimento é parecido com o de um mercado de rua, com a diferença de não haver bancas, apenas torres de caixotes com os diversos produtos em exposição.

Quem vem aqui comprar sabe onde deve dirigir-se, já que algumas empresas são especializadas em determinados produtos. Os clientes circulam a pé ou de bicicleta entre os vários entrepostos a fazerem slalom com empilhadoras e reboques manuais movimentados por dezenas de repositores. Esta agitação transforma-se numa coreografi a delirante, que por vezes chega ao limite do choque, até soar uma pequena buzina para alguém se desviar e abrir uma nesga no percurso para uma qualquer palete de caixas.

Cada produto tem um valor mínimo e máximo, estabelecido numa bolsa diária que regista as transacções e estabelece a cotação. O preço é discutido no momento e varia de acordo com as quantidades compradas e o montante que cada fornecedor pede. Por vezes é necessário recorrer à bicicleta para finalizar um negócio. Os grandes compradores enviam alguém a um dos pavilhões com o mesmo produto e fazem uma última oferta para fechar a compra ao melhor preço possível. Cá fora, o frenesim.

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