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Calvario, Lorenzo de Ávila e Alonso de Tejerina

Calvario, Lorenzo de Ávila e Alonso de Tejerina DR

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Por Castela e Leão, sob o mote da "Paixão"

Actualmente com apenas cinco mil habitantes, Medina de Rioseco mantém, contudo, o título de cidade que lhe foi outorgado por Filipe IV, em 1632. É uma terra que continua a celebrar a Semana Santa à imagem de outros tempos, com a população a sair à rua em procissão atrás de pesados andores que exigem vinte homens para os carregarem. De resto, não é apenas em Rioseco que esta quadra religiosa se mantém viva. "A celebração de Semana Santa em Castela e Leão está impregnada duma emoção religiosa forjada ao longo dos séculos, que aqui tem uma importância destacada e possui uma solidez que não só não diminuiu como tem mesmo vindo a crescer com o tempo", salienta o catálogo da exposição Passio/ Edades del Hombre, que ocupa este ano uma das quatro catedrais de Medina de Rioseco, a Igreja de Santiago dos Cavaleiros.

Aqui, para além da profusão de cartazes da exposição com uma coroa de espinhos estilizada, uma exortação de Santa Catalina de Siena mostra ao que vamos: "Abri os vossos corações à dor e à compaixão: preparai as lástimas, e lamentos, e tristezas; libertai as lágrimas dos vossos olhos, e dai voz aos suspiros; movei o ânimo e a compaixão".

Três representações da Última Ceia de autores que vêm do século XVII (do florentino Jacopo Chimenti da Empoli, 1611) até à contemporaneidade (Venancio Blanco, 2001, e José Vela Zanetti, 1973) são as primeiras da mais de meia centena de peças que fazem o percurso da Paixão de Cristo até à Ressurreição, num alinhamento dramático encenado na nave central deste templo do século XVI, que associa os estilos gótico e barroco.

A lógica da exposição em Rioseco é precisamente pôr em diálogo e em confronto diferentes épocas e estéticas da arte religiosa, com a particularidade de a maioria das peças provirem das valiosas colecções de Castela e Leão - não por acaso, considerada a capital da escultura espanhola. É um caminho espinhoso, seja ele representado no maneirismo renascentista do Cristo atado à coluna, de Sebastián Ducete (1611), no "hiper-realismo" de um Cristo jazente, de Gregorio Fernandez (1627), com pormenores como o recurso a dentes de marfim e unhas de touro para conferir mais "verdade" à dimensão humana da Paixão, ou no neo-realismo do Ecce Homo contemporâneo de Ricardo Flecha Barrio (1990), que envolve o corpo de Cristo numa túnica de rede de arame e com grilhetas de ferro.

Meia centena de quilómetros para sul, em Medina del Campo (onde a rainha Isabel, a Católica morreu em 1504), Paixão continua a falar das últimas horas de Cristo, mas desta vez sob uma ordenação diferente. Nesta vila de vinte mil habitantes, é a igreja jesuíta de Santiago el Real (também do século XVI) que acolhe quase uma centena de peças ordenadas em cinco núcleos temáticos recolhidos nos textos bíblicos: Ecce Homo, Agnus Dei, Fons et culmen, Dulce lignum e Via crucis.

A exposição começa com representações de Adão e Eva (anónimo da escola hispano-flamenga do século XV) e da Árvore da Vida (Francisco Campos Lozano, 2001), e percorre igualmente vários séculos de representações da Paixão, do maneirismo e do barroco até ao expressionismo abstracto com que o conhecido pintor contemporâneo António Saura representa a crucificação. Maior, mais diversificada e ecléctica do que a selecção de Rioseco, a de Medina del Campo expõe muitas outras peças da iconografia religiosa: vitrais, máscaras funerárias, custódias, paramentos, matracas, sinos, bíblias e até partituras musicais.

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