Fugas - Viagens

  • Copenhaga. A pequena sereia
    Copenhaga. A pequena sereia Miguel Madeira
  • Copenhaga. Nyhavn, porto novo
    Copenhaga. Nyhavn, porto novo Miguel Madeira
  • Copenhaga
    Copenhaga Miguel Madeira
  • Copenhaga
    Copenhaga Miguel Madeira
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    Copenhaga Miguel Madeira
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    Copenhaga Miguel Madeira

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A sereia de Copenhaga contempla a cidade há cem anos

“A sereia não possui uma alma imortal e apenas pode obter uma através do amor de um homem; a sua vida eterna depende de um poder que lhe é estranho.”  

Vinte anos depois, também o braço direito da estátua, mais tarde recuperado, foi vítima de um acto de vandalismo, seguindo-se, em 1990, nova tentativa de lhe decepar a cabeça que provocou um rasgão de 18 centímetros no pescoço. Após oito anos de quietude, a sereia foi de novo decapitada e a sua cabeça devolvida anonimamente a uma estação de televisão próxima do local onde se ergue; em 2003, uma carga explosiva na base fê-la voar para as águas do porto, sendo encontrada com buracos num pulso e num joelho.

“Fora sempre até então silenciosa e reflectida; a partir desse dia passou a sê-lo ainda mais. As suas irmãs interrogaram-na sobre o que ela vira à superfície, mas ela nada lhes contou.”

Já neste século, as motivações contra a sereia assumiram outro carácter: no espaço de quatro anos viu-se, subitamente, ora trajando uma burqa, como forma de protesto face à eventual integração da Turquia na União Europeia, ora com um vestido e um véu árabes. Várias vezes pintada, foi descoberta em Março de 2006 com um vibrador na mão e com tinta verde espalhada pelo corpo, a mesma cor escolhida para nela escreverem March 8, levando as autoridades a suspeitar que existia uma relação com o Dia Internacional da Mulher, que se celebra nesse dia.

Deito um último olhar à pequena sereia sob o céu opaco e prometo a mim mesmo voltar, um dia mais tarde, para ler, mesmo à sua frente, A Sereiazinha. Agora é tempo de me embrenhar nesta cidade que respira juventude, cosmopolita e poliglota, que se abre com a mesma facilidade para o mundo e para o mar.


Ambiente encantador

Porta do Báltico e do mundo nórdico, a capital risonha do sul da Escandinávia expressa um carácter aberto que contrasta com os seus vizinhos do norte, proporcionando o que os dinamarqueses designam por hyggelig, um ambiente encantador, que se exala a qualquer hora do dia. Um dos melhores lugares para se iniciar uma visita a Copenhaga é a Radhuspladsen, à volta da qual se agrupam algumas das mais magnificentes jóias da cidade. É neste palco, onde a vida fervilha, que o viajante encontra a Fonte do Touro e do Dragão, uma obra em cobre erguida em 1923 e, não muito distante, a figura em bronze de um meditativo Andersen, filho preferido da capital dinamarquesa, no qual pouso um olhar antes de chegar à Vester Voldgade, para tentar escutar uma melodia de outra estátua conhecida como Os Tocadores de Lur (trompa viking). Eu espero uns minutos, eles aguardam há 99 anos: reza a lenda que os dois idosos que se recortam contra o céu serão capazes de tocar se por ali passar uma virgem. Mas desde 1914, ano em que foi colocada a coluna, nem um único som produziram.

De volta à Radhuspladsen, fito a escultura do bispo Absalon, fundador da cidade, encimando uma pequena varanda da fachada do imponente edifício da Câmara Municipal, construído em finais do século XIX, depois o Relógio do Mundo, de Jens Olsen, e ouso subir à torre que se eleva a mais de cem metros e de onde gozo de uma panorâmica soberba sobre a cidade que, vista dali, se assemelha a uma ilustração de um conto de Andersen.

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