A meia dúzia de passos, na Dantes Plads, encontro um dos museus mais interessantes de Copenhaga, o NY Carlsberg Glyptotek, que abriga as colecções de Carl Jacobsen, conceituado cervejeiro e mecenas da arte — deparo-me com obras egípcias, romanas, etruscas e gregas, um admirável mundo composto de estátuas de imperadores e centuriões, bem como, em diferentes espaços, quadros de pintores impressionistas, de Gauguin a Van Gogh, e ainda mais estátuas, agora de Rodin, entre elas o famoso Beijo, antes de finalizar com bronzes de Edgar Degas, um total de 73 peças que tornaram o célebre pintor francês também numa figura proeminente no mundo da escultura.
Em vez de uma cerveja, opto por um café mas, antes ainda de o saborear, num espaço agradável, perscruto o Jardim Tropical, sob a bonita cúpula central de cristal que me permite ver o céu escurecido.
Dimensão festiva
De um lugar que concede um silêncio tão íntimo como é o museu, mergulho no intenso formigar da Stroget, a rua pedonal que é uma das mais animadas da cidade e considerada a mais comprida da Europa, com as suas lojas luxuosas que, desde o século XVI, passam de pais para filhos e as suas casas típicas que remontam a 1796, o ano que se seguiu ao segundo grande incêndio de Copenhaga. A rua vai ganhando diferentes designações mas raramente se altera a sua dimensão festiva, ora mostrando homens jogando xadrez, ora exibindo músicos solitários com vontade de uns dias de férias da pobreza. Vagabundeando por lugares menos concorridos, chego à Gammel Strand, a velha praia, em tempos remotos o limite aquático da cidade e de onde desfruto de uma vista esplendorosa sobre o Palácio Christianborg antes de penetrar na Kongens Nyrov, o coração da cidade, dominada pela estátua equestre de Christian V.
Numa capital onde 50 por cento da população utiliza a bicicleta nas suas deslocações, decido-me por este meio de transporte para continuar a percorrê-la, detendo-me para espreitar a fachada do Hotel de Inglaterra, o Det Kongelige Teatre, mais importante centro cultural do país, sede do Teatro Nacional da Dinamarca, da Ópera e do Ballet, e mais demoradamente o Palácio de Charlottenborg, impressionante obra barroca que serviu de morada, no século XVIII, à rainha Carlota Amélia e, mais tarde, depois de remodelado no tempo de Frederico V, à Escola de Belas Artes. Errando sem destino, sinto uma satisfação renovada quando atravesso a Rua Bredgade, com as suas lojas de antiguidades convivendo harmoniosamente com mansões e palácios renascentistas onde funcionam embaixadas e consulados, uma artéria com uma vida própria onde Soren Kierkegaard encontrou a morte.
Acabo por desaguar, de forma natural, numa pequena praça com as suas bonitas casas barrocas e na qual se destaca a Marmorkirke, a igreja de mármore com um interior imperdível e uma cúpula de 30 metros de diâmetro que lhe confere o estatuto de uma das maiores da Europa. O dia esgota-se mais rapidamente do que as forças mas sobra tempo para contemplar o Palácio de Amalienborg, residência da realeza desde 1794, assim como os quatro outros palácios idênticos decorando quatro dos oito lados desta praça onde, ao meio-dia, é possível ver os soldados em uniforme de gala e gorro de pele compenetrados na cerimónia do render da guarda. A noite cai e, agora a pé, dirijo-me até Nyhavn, o porto novo de onde se pode ter uma visão da velha cidade. As luzes brilham e deixam ver a multiplicidade de cores das suas casas que parecem debruçar-se sobre os antigos veleiros atracados na pitoresca doca. Restaurantes e tabernas enchem-se de gente e de vida e, lá fora, os transeuntes caminham para cá e para lá sobre as pedras antigamente pisadas pelos marinheiros.