Livros e liberdade
A manhã do dia seguinte encontra-me de novo em Nyhavn, para ver este recanto numa perspectiva diferente, mais intimista, mais serena e, daqui, vagueio ao longo do canal até chegar à Biblioteca Real (quase cinco milhões de volumes) sem, durante o trajecto, ignorar o edifício da Bolsa, um dos mais antigos da cidade, com o seu telhado de cobre esverdeado e a sua agulha com quatro caudas de dragão entrelaçadas ameaçando furar o céu. A biblioteca, fundada em 1773, tem hoje a companhia do Diamante Negro, um edifício que resultou da polémica renovação, em 1999, do espaço mas que é visto, aos olhos de muitos, como um exemplo notável do design vanguardista dinamarquês — ou não fosse Copenhaga famosa por combinar a beleza do mais clássico em interiores e imóveis com outros de linhas modernas e actuais.
A próxima etapa é Rosenborg, imponente construção em tijolo que alberga, desde 1833, o museu da coroa, com um total de mais de dez mil peças reunidas nos três últimos séculos, entre elas relíquias do fundador do castelo, o rei Christian IV. Sendo do estilo do renascimento holandês, contrasta com os Jardins do Rei, desenho inglês do século XIX, e é um dos lugares mais tranquilos de Copenhaga, com tudo o que se espera de um castelo: torres, ameias, torreões e fossos.
Agora que amanhã se evapora, nada melhor do que uma visita relaxante à Cervejaria Carlsberg, no coração do bairro de Vesterbo, onde me esperam, logo à entrada, dois elefantes indianos, a história desta indústria cervejeira fundada em 1847, todo o processo da cevada até se converter em cerveja e, finalmente, com a sede apertando cada vez mais, uma prova de degustação para encarar, com outro sentido, as vicissitudes de Christiania. Antiga base militar, foi ocupada, em 1971, por anarquistas, hippies e artistas e autoproclamada cidade-livre pelos seus cerca de 1000 habitantes (hoje serão uns 10 mil), regendo-se pelas suas próprias leis, que incluem o uso tolerado (cada vez menos pelas autoridades dinamarquesas) de drogas leves e a proibição de fotografar. Deambular por este mundo aparte, livre de carros, fiel à liberdade individual e com grande sentido comunitário, é também uma experiência aparte numa sociedade capitalista da qual Christiania teima em demarcar-se.
Passo fugazmente pela Vor Frelsers Kirke, observo a sua torre em espiral erguendo-se a 95 metros, atravesso a ponte e, sem pressas, cumprindo a promessa feita a mim próprio, regresso junto da Pequena Sereia, abrindo o meu livro de folhas já amarelecidas no conto de Hans Christian Andersen. Antes de mergulhar na leitura, prendo o olhar na área industrial que se espraia nas costas da estátua e, mais para lá, na ponte de Oresund, uma das grandes obras da engenharia viária na Europa, com os seus 16 quilómetros de longitude unindo Copenhaga a Malmoe, na Suécia. Uma obra megalómana pela qual foi preciso esperar mais de cem anos — já em finais do século XIX foram apresentados os primeiros projectos. Nesse tempo, tão distante, ainda a Pequena Sereia não era uma estátua mas apenas uma fábula que os filhos continuam a gostar de escutar da boca dos pais.