O Club Med2, único cruzeiro da rede de resorts francesa, tem dois restaurantes, três bares (um deles transforma-se em discoteca à noite), duas piscinas, um ginásio, um salão para os concertos e espectáculos, a boutique duty free e um spa. Há actividades durante todo o dia. Da aula de dança de salão aos abdominais, passando pelo torneio de ténis de mesa aos ritmos da zumba ou um de origami. Há sempre a possibilidade de não fazer nada e atirar-se para uma das espreguiçadeiras ao longo dos 2.000 metros quadrados de deck. A língua franca aqui é o francês. E sim, há a comida.
As refeições obrigam-nos a seguir uma programação intensa e nos faz perder várias aulas de ginástica. Pequeno-almoço, almoço, chá com crepes, happy hour, jantar, bebidas pós-jantar. Bar sempre aberto e tudo incluído. O chef francês de origem italiana, David Salvi, comanda a equipa de 36 pessoas que trabalham dez horas por dia para transformar as férias no veleiro em uma viagem gastronómica. Só em baguetes, são 200 em três fornadas por dia. Há as com azeitona ou as cozidas com queijo emmenthal e nozes. Mas hors-concours é a de queijo de cabra com mel. Os menus variam noite e dia, todos os dias. Os que fazem mais sucesso são o italiano e o de especialidades das Ilhas Maurícias de onde vem a maior parte da tripulação (os filipinos são o segundo maior grupo). As duas cozinhas em dois andares são pequenas mas tudo é organizado para que os pratos sejam servidos o mais rapidamente possível. O maior desafio para o chef francês, que trabalha há 18 anos no Club Med, é adaptar o menu aos produtos locais já que a qualidade dos ingredientes pode variar de ilha para ilha, país para país, quer nas Caraíbas, na Europa ou na América do Sul.
"A culinária é uma das principais razões pelas quais os hóspedes voltam – explica o marroquino Medhi Kamali – o Chef de Village para usar a terminologia do Club Med – à mesa do jantar, ensaiando um português com sotaque baiano (trabalhou no resort do grupo na Baía, no Brasil), e antes de mais uma programação nocturna, com muita dança. Aliás esta talvez seja a única explicação para não termos engordado os sete quilos habituais que um passageiro pode ganhar a bordo de um cruzeiro durante uma semana.
Interlúdios da vida no mar
A vida do mar tem destas coisas. Na primeira manhã, começa uma certa agitação entre os passageiros. Há boatos de que não iremos a Tânger, em Marrocos – primeira paragem e única fora de Espanha. Uns dizem que é por causa do mau tempo, outros que é por motivo de segurança. Há alguma expectativa a bordo que é cortada pela voz do comandante no altifalante a anunciar a decisão final: não vamos à Tânger. Há um alerta do Governo marroquino que desencoraja um veleiro francês, possível alvo de terroristas, a atracar. O comandante informa o novo destino: Cádis, Espanha. O nosso itinerário a partir de agora passa a ser: Cádis, Málaga, Cartagena, Ibiza, Barcelona e Nice (nós iremos voltar de Barcelona). O adeus a Marrocos não nos impede de sentir um certo frisson quando passámos pela primeira vez pelo Estreito de Gibraltar para lá da meia-noite e avistámos de um lado a África e do outro a Europa. Mas os imprevistos (à vista) ainda não tinham terminado.