Nesta vida de cruzeiro, aprende-se rapidamente que tem que se estar no porto no máximo meia hora antes de o veleiro partir. Quem não estiver fica para trás e arca com as despesas para chegar ao próximo porto. Mas quinze minutos depois da hora da partida continuávamos em Málaga. Uma passageira estava desaparecida. O veleiro começou a deixar o porto e teve início o drama. Uma mulher desesperada a correr à beira do cais em nossa direcção e nós a afastar-nos. Com a trilha sonora de Vangelis ao fundo (música oficial de cada partida) parecia mesmo que estávamos num filme de Hollywood. Era o começo de uma saga - com direito a carros de polícia, lanchas, correria - que só terminaria 45 minutos depois. Voltamos ou não voltamos? Cento e noventa e nove passageiros acompanhavam avidamente a trama, com máquinas de fotografar e filmar em punho, a oscilarem entre culpá-la ou absolvê-la pelo "seu crime". Enfim, a francesa é resgatada numa pequena lancha e entra abatida no veleiro sob aplausos. A explicação é ainda mais cinematográfica: a loja em que fazia compras fora assaltada e a polícia não deixara ninguém sair. A francesa mostrava a carteira do Club Med, que todos os passageiros usam para entrar e sair dos portos, e gritava bateau, bateau mas os espanhóis não a compreendiam. Passado o drama, ela toma chá e, a nós, voyeurs, restam os crepes.
Tanto de noite como de dia
À noite, a vida no cruzeiro é quase tão intensa quanto de dia. É por isso que "os serviços mais procurados no spa – contrariamente aos outros resorts – não são as massagens mas o cabeleireiro e a manicura" – revela a portuguesa Carla Simões, responsável pelos serviços do Club Med spa Carita (os serviços de Spa são os únicos serviços no barco que não estão incluídos).
As noites temáticas são um espectáculo à parte levadas a sério pelos hóspedes habitués. No Club Med2, a média de passageiros "proprietários" ronda os 75%, maior do que a média nos outros resorts do grupo que é à volta dos 60%. A média de idade é de 70 anos. Mas nesta viagem estamos nos 57.
Os gentis organizadores sentam-se à mesa para almoçar ou jantar connosco, dançam com os hóspedes, fazem espectáculos para os passageiros. Ou seja, não mantêm uma relação distante e fria de empregado e hóspede como na maioria dos resorts e hotéis. Num village em terra, pode até não acontecer, e para alguns pode até cansar, mas no mar, deck acima, deck abaixo, começa a nascer uma certa cumplicidade que se instala entre os passageiros, conhecidos ou não, organizadores, tripulantes.
E de facto a cumplicidade espalha-se a velocidade de cruzeiro. Começamos por achar os espectáculos nada de especial; a coreografia na discoteca risível; o respeito aos trajes de noite, um detalhe sem importância; a trilha sonora do Vangelis, que acompanha cada partida do cais, um pouco exagerada. Mas com o passar das noites, Charles Guémas subiu ao palco como Charles Chaplin e aplaudimos entusiasmados; não só dançávamos todos os passos como ensinávamos os crazy signs a quem ainda não os dominava; ficávamos chateados se não cumpríamos o dress code da noite e até começámos a emocionar-nos com a Conquista do Paraíso dos Vangelis. Champagne a mais?