Na Cartagena romana
Carthago-Nova, como era conhecida na época dos romanos, é uma das descobertas mais preciosas desta viagem. A iniciativa Cartagena Porto de Culturas financiou a recuperação de inúmeros monumentos na cidade. Da muralha púnica ao bairro do Fórum Romano é possível visitar uma casa da época romana do século I a.C, a casa de la fortuna, de 204 metros quadrados, que foi encontrada por acaso quando se construía um prédio residencial na década de 1970.
A principal atracção, entretanto, é o Teatro Romano, também datado do fim do século I a.C e que só foi descoberto em 1988 no subsolo de um bairro pobre de pescadores. Até a velha catedral da cidade se sobrepunha a este antigo teatro, que tinha capacidade para 6000 espectadores. O Teatro, em ruínas praticamente intactas, é uma espécie de jóia da coroa do Museu Teatro Romano, que já é um dos mais visitados de Espanha. É também a última "peça" à mostra na exposição tornando à chegada ao amplo teatro e esta viagem ao Império romano ainda mais excepcionais.
Ainda que Cartagena seja o porto em que ficámos menos horas, há tempo de explorar a cidade para além do seu passado romano. A sugestão é a visita ao Museu Refúgio da Guerra Civil, que conta a História mais recente de Espanha e faz-nos reviver a guerra que dividiu o país entre 1936 a 1939. O abrigo subterrâneo escavado na Colina de la Concepción, onde fica o castelo do mesmo nome, era o maior dos 13 que existiram para proteger os moradores durante os bombardeamentos da artilharia de Franco ( na realidade a alemã, aliada do general Franco). Podia abrigar até 5500 pessoas. Cartagena foi uma das cidades mais bombardeadas durante a Guerra Civil (o próprio Museu expõe a disparidade dos números que variam entre 40 e 117 vezes) por ser a sede da frota republicana, apesar de o governo local ter sido leal a Franco. Andar pelo abrigo com seus corredores e amplos espaços encravados na pedra é também reviver o quotidiano dos moradores de uma cidade sitiada. Como passar cinco ou seis horas debaixo da terra, como improvisar aulas, entreter as crianças, o que comer, como tentar levar uma vida "normal". Uma lição de História in loco.
À la playa, em Ibiza
O jornal de bordo, que é sempre deixado na cabine na noite anterior a atracarmos num novo porto, avisa: não perca a linda chegada ao porto de Ibiza. Motivo mais do que suficiente para acordar mais cedo e ver a aproximação à ilha, hoje a mais badalada do arquipélago dos Baleares. A chegada de um veleiro ao cais segue um ritual que, a esta altura, já nos habituamos. O piloto da barra aproxima-se no seu pequeno barco e comanda a operação de manobra de entrada no porto.
A primeira visão é da antiga catedral no topo da colina onde fica o bairro histórico do século XIII. Ao sairmos do barco, iates luxuosos, lamborghinis e ferraris ao pé. Todos com placas do Dubai. A chegada a Ibiza também marca o primeiro dia de sol e muito calor desde que começámos a viagem. É dia de praia. Escolhemos ses Salines recomendada por um morador. Fica a 15 minutos do porto de táxi que custa aproximadamente 15 euros. Não nos arrependemos. O mar, ora verde, ora azul, convida para muitos banhos. O nosso primeiro no Mediterrâneo desde que o cruzeiro partiu de Lisboa. Nada mal para um dia de Primavera. Ao redor, jovens de topless desafiam a lei da gravidade a jogarem às raquetes. Não viveremos a badalada noite de Ibiza. Mas será o único porto em que partiremos à noite, durante a festa de Carnaval no veleiro. Ver Ibiza afastar-se na escuridão é ainda mais belo do que vê-la despertar. Com ou sem máscara.