Fugas - Viagens

  • Antibes, praia
    Antibes, praia Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice
    Nice Renato Cruz Santos
  • Nice, Museu de Arte Moderna
    Nice, Museu de Arte Moderna Renato Cruz Santos
  • Cannes
    Cannes Renato Cruz Santos
  • Cannes
    Cannes Renato Cruz Santos
  • Estúdio Picasso em Vallauris
    Estúdio Picasso em Vallauris Renato Cruz Santos
  • Fundação Maeght, Saint-Paul de Vence
    Fundação Maeght, Saint-Paul de Vence Renato Cruz Santos
  • Galeria de arte, Saint-Paul de Vence
    Galeria de arte, Saint-Paul de Vence Renato Cruz Santos

Continuação: página 2 de 5

Côte d’Azur: Quem pintou esta paisagem?

 

A verdadeira Cannes (sem a palavra festival)

Ernest Buttura, Joseph Contini, Adolphe Fioupou... No século XIX, esta geração de pintores viu à distância — e pintou — Cannes, uma pequena cidade de pescadores dispersa na paisagem. Ainda hoje, o Musée de la Castre mostra como tudo era antes e como tudo mudou quando, em 1834, o destino colocou Cannes na rota de Lord Brougham, que não atracou em Nice devido a uma epidemia de cólera. Quase por acidente, o chanceler inglês ficou em Cannes e elogiou de tal forma esse pedaço de terra que a aristocracia inglesa, curiosa, o inundou, aproveitando as maravilhas de um Inverno ameno. Esse é o antes. O depois são mansões nos quatro cantos da cidade — perdão, da modesta vila piscatória — que num ápice viu nascer na sua baía curva (como que desenhada a pincel) a famosa Promenade de la Croisette, as fileiras de palmeiras, os bancos de ferro, a iluminação a gás e a primeira de muitas praias privativas.

Já podemos sair do museu. Essa Cannes ainda existe — vemo-la da torre do Musée de la Castre. E essa talvez seja a verdadeira Cannes — talvez mais até do que a Cannes que normalmente ouvimos associada à palavra “festival” —, a cidade do sol e do mar (os locais e os menos locais dizem que estes são os seus melhores produtos de beleza), das cadeiras viradas para o Mediterrâneo, das canas de pesca espetadas na areia, dos barcos de madeira entre iates milionários, dos contrastes pitorescos, dos hotéis-palácio Belle Époque e Art Deco (a começar pelo imponente Carlton) e dos aromas que sentimos quando paramos para acompanhar o ritmo da “Croisette” — alheios ao facto de ter sido esta a fonte de inspiração para o perfume mais famoso do mundo, o Chanel Nº 5.

A baía, uma das mais famosas do mundo, ganhou boutiques de luxo, hotéis-palácio, um Palácio dos Festivais (1947), que anualmente reúne a crème de la crème do cinema, prosperidade e fama internacional. Mas a cidade não esqueceu as suas origens populares, o rigor e a descontracção do jogo da petanca na Place de l’Etang, as escadas retorcidas e as vielas do Suquet e a agitação do Marché Forville, inaugurado em 1870 e apelidado de “barriga de Cannes”, dada a sua importância para o quotidiano das pessoas que ali vivem. Todos os dias (excepto à segunda-feira, altura em que o espaço se transforma numa movimentada feira de antiguidades) é possível apreciar o frescura dos bolbos de funcho, abrir ouriços do mar (e comer o recheio com uma colher de chá), tentar distinguir queijos (pela forma, cor ou cheiro) e esperar ansiosamente pela nossa porção de “socca”, uma espécie de panqueca de grão-de-bico, água, sal e azeite preparada em forno de lenha. Não se esqueçam de polvilhar com pimenta.

Em Cannes, o cinema é como um tempero. São elementos indissociáveis — a cidade recebe 2.5 milhões de visitantes por ano e muitos deles vão porque o seu actor preferido já lá esteve ou ainda lá está. A sombra do cinema está em todo o lado, é indispensável, obrigatória para o prato ficar completo (visitas guiadas a seis euros por pessoa). São as passadeiras vermelhas em sítios inusitados, são as fotografias das estrelas que já passaram por aqui (e por aqui, por ali e também por aqui), são os moldes das mãos gigantes de Sylvester Stallone a alguns metros das mãos de Akira Kurosawa (muito procurado pelos muitos turistas asiáticos), são os murais gigantes que homenageiam Charlie Chaplin e o poster do filme The Kid, Buster Keaton, Jacques Tati e Marylin Monroe. São os preparativos quase carnavalescos para um festival que nasceu em 1939. E somos nós, que nos podemos transformar numa “Bond girl”, nos “anjos de Charlie” ou num “jedi” — basta encaixar a cabeça nos moldes de ferro “plantados” ao longo da baía.

Apanhamos um ferry (travessia de 15 minutos; 13 euros por pessoa) e afastamo-nos dela. Lentamente, aproximamo-nos das Ilhas Lérin (Saint-Honorat e Sainte-Marguerite) e da verdadeira máscara de ferro. Enquanto a primeira ilha, mais pequena e recatada, se mantém indiferente aos iates e às beldades que se banham nas suas águas (é possível conviver com os monges, os únicos habitantes da ilha que produzem vinhos e licores como o Lérina e o Lerincello), a segunda, virada para Cannes, continua a esconder de milhares de visitantes a verdadeira identidade do seu mais famoso morador: o homem da máscara de ferro.

Entre eucaliptos e pinheiros centenários, a principal atracção é uma das masmorras do Fort Royal, um vasto complexo de fortificações do século XVI ocupado pelos espanhóis durante a Guerra dos Trinta Anos, onde esteve presa a mais enigmática personagem da história francesa. Seria o irmão gémeo de Luis XIV? O seu irmão bastardo? Ou o seu verdadeiro herdeiro, o duque de Beaufort? Há uma teoria escondida atrás de cada porta, quase tantas quantas as esculturas da iniciativa Land Art (peças criadas em regime de residências artística unicamente com materiais encontrados na ilha) que vão dando vida a este santuário de pássaros e outras espécies de animais e plantas.

Fim de tarde. Navegamos em direcção a Cannes. Por momentos recuamos no tempo.

--%>