Fugas - restaurantes e bares

A noite volta a ser Hot

Por Luís J. Santos (texto), Ricardo Rezende (vídeo), Nuno Ferreira Santos (fotos) ,

Um incêndio levou a cave do Hot e fechou o velho clube por dois anos. Agora que regressou à programação regular, voltámos à nova casa alfacinha desta instituição. Mudaram-se as paredes, mas não mudou o espírito: entre música e copos, as noites continuam quentes na catedral do jazz da Praça da Alegria.
Sexta à noite. O novo Hot vai-se compondo. Entre dois copos, a banda sonora faz-se de uma jam session das vozes de jovens e velhos clientes, alguns a conhecer o espaço pela primeira vez. As luzes reduzem-se, em palco entram os músicos, faz-se um silêncio expectante e respeitoso. É noite de conhecer a voz de Elisa Rodrigues, os seus músicos e o seu disco de estreia, Heart Mouth Dialogues. Os intérpretes vão conquistando a audiência, que, sapiente, aplaude quando reconhece momentos de maior perícia no piano, na bateria ou no contrabaixo, entre monólogos e diálogos musicais. A sessão faz-se de clássicos como Cry me a river mas também de variações sobre Roxanne dos The Police ou Sonhos de Caetano Veloso cantado a cappella e que merecerá à jovem cantora uma ovação certeira. É mais uma das noites quentes do renascido Hot Clube.

"Esta é uma sala sagrada. Só se toca e ouve jazz. Tudo o que se faz aqui é jazz", diz-nos Inês Cunha, presidente do conselho directivo do Hot Clube de Portugal, enquanto nos guia pelos seus recantos. Pouco mais de dois anos após um incêndio destruir o edifício em que o Hot viveu durante décadas, o jazz voltou a encher a Praça da Alegria, agora em espaço novinho em folha. Em Dezembro, o clube marcou o regresso com três dias de espectáculos e, no final de Janeiro, voltou-se à vida normal, com programação regular. "A reabertura tem sido um sucesso diário. As pessoas tinham saudades", conclui Inês. Afinal, foram dois anos sem sentir as noites quentes do Hot e reviver o seu espírito, célebre a nível mundial tanto pelo facto de ser um dos mais antigos clubes de jazz da Europa - em actividade desde 1948, sendo "o que se mantém a funcionar ininterruptamente há mais anos" -, como pela marca do seu fundador, Luiz Villas-Boas, e a lista de celebridades que acolheu ao longo das décadas: de Count Basie a Vinicius, de Sarah Vaughan a Dexter Gordon, dos músicos de Quincy Jones a Pat Metheny. Renascido das cinzas, esta fénix do jazz mostra-se agora preparada para um futuro repleto de acontecimentos. "Estamos a fervilhar de ideias", garante Inês Cunha.

A casa ainda cheira a nova e não tem, claro, a patine da velha cave "Mas a alma do outro espaço conseguiu transferir-se para aqui." Passado um pequeno corredor, entra-se directamente para a sala onde (quase) tudo acontece, um espaço aberto em que o ponto central é, claro, o palco. Aqui, brilha um piano "novinho em folha" ("o outro estragou-se definitivamente"), o contrabaixo e a bateria (que levaram um "arranjo grande") - e cintila também um novo sistema de som. Outros instrumentos se lhe vão juntando. A orquestra fica completa com o público, que tem o centro da sala artilhado com mesinhas, cadeiras e banquinhos (revestidos a cortiça, assinale-se). E ao seu dispor, um bar de apoio. Inês apressa-se a sublinhar que "este é um sítio onde se faz e ouve música e que tem um bar". "Não o contrário. Aqui, a música é o que importa." Quem aqui vem, pode aliar uma noite de copos com a música mas, já se sabe, essencial é mesmo a criação artística. A agenda fulcral é simples: concertos marcantes de quinta a sábado (em geral em dois momentos, 23h e 00h30) e jazz contínuo em diferentes variações nos outros dias.