Fugas - restaurantes e bares

  • Nelson Garrido
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Uma casa nortenha de comidas superlativas

Por José Augusto Moreira ,

Produtos genuínos, da terra e do mar. E os sabores únicos e elaborados do melhor da cozinha regional. Ao Rogério do Redondo, no Porto, casa de grande satisfação gastronómica, falta mesmo muito pouco para tornar-se um grande restaurante.

Esta é uma casa nortenha, sem a mais leve margem para dúvidas. Daquelas que, mesmo estando no centro da cidade, rodeada pelo bulício urbano e frequentada por executivos e gestores, não deixa de remeter em permanência para aquilo que de mais guloso e apelativo tem o mundo rural. Os produtos genuínos da terra e do mar e os sabores únicos e elaborados dos cozinhados de aldeia. É o Porto burguês e tradicionalista em todo o seu esplendor.

Não se pense, contudo, que o Rogério do Redondo é um daqueles restaurantes modestos e de cariz popular, que caiu no goto das gentes endinheiradas. É, antes, bem ao contrário. Aqui tudo é superlativo, como com absoluta clarividência observou um dos esforçados compinchas nesta jornada gastronómica. Da qualidade dos produtos e do trato culinário às quantidades e preços - um tanto puxadotes, diga-se. Que ninguém pense, portanto, em dietas, cozinhados frugais ou doses contidas.

A lista, que anuncia um "serviço com qualidade e carinho", é marcadamente sazonal e varia consoante as ofertas de mercado. Sobretudo da lota, já que é nos pescados de imaculada frescura e brilho, que à entrada logo nos cativam o olhar, que esta casa se destaca. Pescadas, robalos, chernes, peixe galo, mas também mariscos da maior qualidade, sempre tratados de forma irrepreensível.

Em regra há um prato do dia, que por este tempo consta de bacalhau (assado no forno, com grão ou à Zé do pipo) às segundas, chispe com feijão vermelho às terças, mãozinha de vitela em jardineira às quartas. As tripas servem-se em jornada dupla (quintas e sábados) e às sextas as carnes assadas como vitela e cabrito, já que o domingo é mesmo dia de descanso.

Na terça-feira em que a Fugas se sentou à mesa, as propostas piscícolas constavam de farinha de pau com pescada, pescada primavera e cozida com todos, robalo (frito ou grelhado) e filetes de pescada com arroz de feijão. Havia ainda umas chamativas caras de bacalhau à Livramento, cuja confecção demorada nos fez desistir da ideia. Nas carnes, além do chispe do dia, costeleta de vitela, bife especial e alheira com ovo e batata frita.

Cestinho com pão de água, de mistura e broa de milho sobre a mesa e uma sopa de alho francês (3,5 euros), densa e aveludada, daquelas que aconchegam o estômago.

Para início, filetes de pescada com arroz de feijão (27,5 euros por uma dose, que dá pelo menos para três). Lombos altos envoltos em ovos, impecavelmente fritos, macios e de sabor divinal. O arroz, servido em púcaro de barro, denso, fugidio e com sabor a campo graças a umas folhas de nabiça. Acompanharam com o Quinta do Ameal 2010, um verde da casta Loureiro que foge ao perfil típico dos vinhos da região. E ainda bem, já que se trata de um dos grandes brancos da actualidade.

A cabeça de pescada cozida com todos (32,50 euros) que se seguiu é daqueles pratos que, só por si, definem o perfil da casa. Manda o produto e a única coisa que há a fazer é tratá-lo com dedicação e carinho, de modo a que nada se perca. Textura, sucos, gelatinas e uma espécie de aveludado que preenche a boca e envolve o palato. Batata, cebola, cenoura e grelos (macios e adocicados), além do ovo. Tudo cozido e rigorosamente escorrido para se deixar envolver pelo azeite. Talvez o mais genuíno exemplo daquilo que é a cozinha atlântica (do mar e da horta), num país que às vezes parece ter a tentação de se catalogar como de gastronomia mediterrânica.

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