Fugas - viagens

Paulo Pimenta

Andar, navegar, comer, dormir e não querer ir embora

Por Patrícia Carvalho

O título é elucidativo: Patrícia Carvalho amuou quando desceu à terra e percebeu que tinha chegado a hora de se despedir de Sabrosa. No primeiro dia cansou as pernas mas a partir daí foi tudo lucro. Comeu bem, provou bons vinhos, acordou com o cantar dos pássaros e ainda se deixou embalar pela suave ondulação do rio. Vida difícil, já se vê...

Exercício: pense na palavra Sabrosa. Fora do contexto futebolístico, que imagens lhe traz este nome? Se a sua mente tem sentido geográfico, poderá visualizar, de imediato, um concelho nortenho, no coração do Douro vinhateiro. Se a literatura é a sua casa, já reviu as paisagens e homens agrestes descritos por Miguel Torga. Se dorme e acorda a pensar em História, recordou-se, certamente, que a tradição (mesmo que os factos possam ser discutíveis) diz que foi lá que nasceu o circum-navegador Fernão Magalhães. E se fechou os olhos e tentou relembrar sabores, pois, aí não vamos arriscar, porque são tantos os vinhos, tantos os enchidos e amêndoas torradas, tantos os doces e pães recheados de carnes fumegantes, que o melhor é não referir apenas um.

Um fim-de-semana não chega. Vimos embora contrariados, amuamos porque queríamos ficar, pelo menos só mais um dia. E não resistimos a um momento de recriminação já comum sempre que nos encontramos no meio dos socalcos do Douro, aquele em que nos questionamos: por que é que não vimos aqui mais vezes? Com as encostas pintadas do verde que a Primavera trouxe, e ainda com as videiras ornamentadas apenas por rebentos - nada de cachos fartos de uvas, que o tempo ainda não dá para tanto -, Sabrosa, junto ao rio, é a fotografia perfeita que transformou esta paisagem em Património Mundial. Mais para cima, para o interior, as vinhas transformam-se, as rochas saltam da terra, rebanhos de cabras de ar bravio atravessam a estrada e o ar da montanha leva-nos a pensar que já partimos para outras paragens, quando ainda não saímos do mesmo concelho.

De um lado ou do outro, a vontade é sempre a mesma: permanecer, ficar ali. Não apenas no meio do rio, de onde muitos visitantes mal chegam a sair, perdendo tanto do que a região oferece. Nem apenas a percorrer os caminhos das vinhas, porque as paredes das casas e os seus habitantes constituem muita da riqueza patrimonial do concelho. E não, de certeza, sem experimentar um passeio de barco, porque se não se olha aquela imensidão de encostas perfeitas do meio do Douro não se viu tudo.

Calcar a terra

É preciso enxotar a preguiça e meter pés ao caminho. O que não é fácil, quando se acorda rodeado de um silêncio quebrado apenas pelo cantar dos pássaros, o afastar das cortinas revela os socalcos pontilhados de folhas verdes e o rio Douro, em baixo, ilusoriamente imóvel no meio de tudo. Mas está decidido que a manhã vai começar com uma caminhada e enchemo-nos de coragem.

A partida é do largo da igreja da aldeia de Provesende. De todas as aldeias de Portugal, a que tem mais casas brasonadas, vai explicando o guia. Há um momento de pausa, para espreitar a padaria tradicional Fátima, de onde foge o cheiro inigualável do pão acabado de sair do forno. Há um, recheado de carnes, que se aconchega no saco que levamos às costas, ao lado da garrafa de água, e estamos prontos para partir.

O caminho é sempre a descer, percorrendo o trilho São Cristóvão do Douro. Com as vinhas e muros antigos de pedra por companhia, ao longo de cinco quilómetros, vamo-nos aproximando do Pinhão, no concelho vizinho de Alijó.

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