Mas mesmo que façamos um esforço e nos lembremos de algumas cenas de filmes de Hitchcock que envolvam comida, a relação entre o realizador e a alimentação está longe de ser evidente. Mas está lá, garante Vasco Câmara. Em "Janela Indiscreta" (1954), por exemplo.
"A personagem de James Stewart está imobilizada. É um voyeur, e Hitchcock reconhece-se nisso. Há mesmo quem veja na perna partida [da personagem] um sinal da impotência sexual de Hitchcock".
Sentado à janela, aborrecido, sem nada para fazer, James Stewart prepara-se para umas longas semanas de recuperação mergulhado num profundo tédio. "Começa a ser alimentado, primeiro pela empregada, depois por Grace Kelly [Lisa, a namorada], e isso começa a acordar nele o desejo de ver o que está a acontecer. É como se a própria comida alimentasse o desejo de que algo macabro aconteça." Mais evidente - e mais macabro - é o papel desempenhado pela comida em "A Corda" (1948), o filme que começa com a imagem de um homem a ser estrangulado, e no qual dois amigos que sonham cometer o crime perfeito acabam por servir o jantar em cima da arca na qual esconderam o corpo da vítima. A comida e a morte estão muito mais próximas. "As coisas aqui aproximam-se da antropofagia".
E aproximam-se um pouco mais em "Frenzy" (a penúltima longametragem de Hitchcock, filmada em 1972). Para esta história de um serial killer que viola e mata várias mulheres em Londres, o realizador volta a um cenário da sua infância - Convent Garden, o mercado londrino onde a sua família vendia fruta e legumes. "Aqui a proximidade entre a comida e a morte conhece um momento de fusão, em que os cadáveres se misturam com as batatas". É no surreal trailer de "Frenzy" que subitamente a perna de uma morta sai do saco de batatas que Hitchcock segura na mão.
Sexo, comida e morte
E chegamos a um dos seus filmes mais icónicos, Os Pássaros. Aí, na leitura de Vasco Câmara, a cadeira alimentar inverte-se. "Os humanos passam a ser o alimento dos pássaros". E, no fundo, é também isso que Hitchcock filma nas cenas obsessivas de pratos com comida de "Frenzy". "Quer obrigar-nos a revermo-nos, como se fosse aquele o nosso destino", afirma o crítico.
O jantar do Eleven parecia querer mostrar-nos isso mesmo, com a sopa de gaspacho a gritar crime por todos os lados, mas o prato seguinte veio reconciliar-nos com o nosso destino - "The Birds com tagliatelle Alfredo" criado por Joachim Koerper e acompanhado por um Quinta de Avidagos Tinto Reserva 2007, Douro, assegurou-nos que nesta fase da civilização ainda somos nós que comemos os pássaros. E a sobremesa - "Fruta de Verão Grace Kelly" - veio definitivamente apaziguar um jantar que correra sérios riscos de ser marcado pela angústia existencial.
Afinal, as angústias ficaram todas para Hitchcock. "A figura dele era algo que o obcecava mas sobre o qual conseguia trabalhar". Era obeso, isso todos sabemos. Seria talvez um problema glandular, admitem os seus biógrafos. A verdade é que para ele a questão não era pacífica. "O físico angustiava-o muito. Sobretudo quando foi à América e percebeu que a imprensa só falava do peso dele e do que comia", conta Vasco Câmara. "Diz-se, por exemplo, que durante a rodagem de "Mentira" vislumbrou o seu reflexo num vidro, ficou obcecado e iniciou uma dieta muito violenta".