Apesar disso, conseguiu transformar a sua figura num ícone e jogar com a barriga saliente e o rosto oval, num perfil que hoje reconhecemos em três traços, e que se tornou uma imagem de marca.
E, no entanto, Hitchcock era um homem com medo. "Queria afastar-se de tudo o que pudesse provocar ansiedade e o humor era uma forma de lidar com a angústia." Se tudo isto tinha a ver com a sua vida sexual (ou eventual ausência dela) já é especulação, mas foi por aqui que a certa altura seguimos neste jantar, com a renovada confiança que tínhamos conquistado depois de comer os pássaros evitando que eles nos comessem a nós. "Os filmes de Hitchcock estão cheios de sexo, o beijo mais longo da história do cinema, o fogo-de-artifício.", sublinha Vasco Câmara.
"Mas ele próprio exorcizava o assunto, brincando e dizendo que só tinha tido sexo uma vez, quando concebeu a filha". O sexo, a comida a morte - e nós como "um bando de Peeping Toms" (foi isto que Hitchcock nos chamou, incluindo-se a ele próprio nessa cultura de voyeurismo).
"Quando olho para os planos da comida, tenho a sensação de que ele nos quis dizer algo sobre nós próprios, sobre a nossa inclinação para a autofagia", diz o crítico do PÚBLICO. Sobre, no fundo, a sociedade do espectáculo e a nossa infinita capacidade de nos devorarmos uns aos outros.
Em Hitchcock, a comida, filmada de forma agressiva, "é uma maneira de falar do nosso futuro, do caminho para a podridão, para ser lixo, para ser resto". O gordo que brincava com a sua angústia (tinha, confessou mais tarde, um medo enorme da autoridade) queria dizer-nos que, num mundo que tudo devora, "também nós íamos ser devorados".
Mas nessa noite, no Eleven, a angústia não veio para o jantar. E, por enquanto, fomos (ainda) nós que comemos os pássaros.