Fugas - Viagens

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Histórias do Mediterrâneo I: Cidades do mar, cidades do encontro

Por Miguel Portas e Luís Leiria

Em 2006, Miguel Portas relatou na Fugas, em conjunto com Luís Leiria, uma série de viagens pelo Mediterrâneo. Uma odisseia pela memória de um mar que chegou a ser o centro do mundo e moldou a cultura da Humanidade.


"Périplo - Histórias do Mediterrâneo" é o título de uma série documental de Camilo Azevedo escrita por Miguel Portas e Luís Leiria e transmitida pela RTP2. Para a Fugas, Portas e Leiria resumiram algumas das histórias e paisagens da produção. Neste "episódio", a viagem passa por Palermo, Istambul e Nápoles. As fotos são de Camilo Azevedo. 


PALERMO
Numa ruela vizinha à catedral de Palermo, um pequeno teatrinho de marionetas exibe, em sessões contínuas, a mais conhecida das canções de gesta medievais. A partir de certo momento, o que parece ser uma inocente história de amor impossível mergulha na mortandade. Não há mouro que resista às espadas cristãs. A plateia, escassa, aplaude, decerto por misericórdia. Afinal, os manipuladores fazem honestamente pela vida, ressuscitando uma tradição siciliana e um poema que correu mundo na época das cruzadas. Os 4002 versos da Canção de Rolando nada devem, contudo, a Palermo, a primeira paragem deste périplo por algumas das principais cidades do Mediterrâneo.

Na verdade, Palermo é a mais “muçulmana” das cidades italianas. Fundada por navegadores cartagineses no século VIII a.C, será, como todo o Mediterrâneo, romanizada, mas sem grande brilho. Só voltaria a prosperar com a conquista árabe, em 831, que a tornou um importante centro de comércio com o Norte de África. Palermo tinha “sarracenos”, portanto. Muitos. Mas quando, em 1072, os mercenários normandos Roger I e Robert Guiscard, vindos do que é hoje a França, a
conquistam, o que se segue não é a expulsão de uma comunidade então maioritariamente islâmica. A nova corte católica vai ser frequentada por muçulmanos, hebreus e ortodoxos.

A arquitectura medieval da capital siciliana ainda hoje ilustra esse singular casamento entre artistas de distintas confissões. É o caso da sua catedral, um edifício híbrido, que ficou conhecido como exemplo de arquitectura “normanda sarracena”: decoração mourisca, interior barroco, e túmulos de reis normandos erigidos ao estilo romano-bizantino... Mas são sem dúvida as três cúpulas vermelhas da igreja de San Cataldo que surpreendem o visitante desprevenido que, por um momento, se pode imaginar em terras de Oriente. Ao lado, a Martorana é uma igreja fundada em 1143 pelo almirante da frota de Roger I, Georges de Antioquia. Este, apesar de criado na fé ortodoxa, mandou-a desenhar como se de uma mesquita se tratasse...


A capela Palatina


A capela do Palácio Real de Palermo eleva aos píncaros a mistura de referências. Os pavimentos de mármore são latinos, de influência franco–romana; os tectos de madeira, muito refinados, assim como os arcos, são islâmicos; e as paredes, revestidas a mosaico, são bizantinas.

O resultado não será uma das sete maravilhas do mundo, mas é o mais excessivo que presenciámos. A capela de todas as vaidades condensa uma cidade, Palermo; e um mundo, o Mediterrâneo, em plena Idade Média. É a capela de uma corte normanda em pleno século XI, desafiando as leituras que resumem a Idade Média a uma «guerra santa» da cristandade contra o mouro e o  sarraceno.

Claro que Rogério II, o primeiro a conseguir reunir os domínios da Sicília num só reino, nos diria que a sua capela se ergueu em honra do Criador. Mas a mistura de estilos celebra, acima de tudo, a inteligência do seu patrono e dos que lhe sucederam. Como Fredrico II, imperador do sacro Império, de origem germânica mas nascido em Palermo, e também rei da Sicília. Este imperador passaria à história por dois feitos quase impensáveis à época: ser excomungado por não se interessar por cruzadas; e reconquistar Jerusalém sem travar uma só batalha.

Fredrico II ocupa um lugar de relevo entre os personagens da história do Mediterrâneo. Era um homem culto que falava diversas línguas, entre as quais o árabe, dominava muitas artes e desenhava os inúmeros castelos que mandou erguer. Contava com um poderoso exército sarraceno de cerca de 10 mil homens, e até a sua guarda pessoal era muçulmana. Este imperador manteve durante anos uma correspondência secreta e amistosa com o sultão do Egipto, al-Kamel, sobrinho do então já falecido Saladino, com quem discutia assuntos como a génese do Universo, a imortalidade da alma ou a lógica de Aristóteles...

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