Fugas - Viagens

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Bako é um deus na Terra com vista para o paraíso

O início da manhã, com a sua luz ainda mortiça, encontra-me na Jalan Carpenter, num lugar cheio de vida cujo nome semeia, não raras vezes, a confusão entre os viajantes que dele já ouviram falar: tanto pode ser o Lau Ya Keng, em hokkien, como Shang Di Miao, em mandarim. Mas é, com uma ou com outra designação, um dos cenários mais genuínos e com mais carácter para dar início a uma exploração pausada da cidade, de preferência depois de um suculento pequeno-almoço que, seguindo o exemplo dos nativos, tanto pode consistir de noodles ou laksa, como de kuch chap, um caldo feito à base de entranhas de porco.

Ao atravessar a rua, e uma vez no interior do colorido templo Siang Ti Miao, um santuário dedicado a Shang Di, o Imperador do Paraíso, estabeleço de imediato uma relação toponímica entre este espaço que abriga uma congregação Teochew e aquela espécie de garagem, do lado oposto, repleta de tendas de comida, com os seus odores inebriantes e o fumo que se insinua na roupa e na pele.    

Errando sem pressas, permaneço na Jalan Carpenter, a rua mais antiga de Kuching que, para os locais, continua a ser a Attap Street, uma palavra malaia que designa uma estrutura coberta com folhas da palmeira nipa (o termo científico é nypa fruticans), uma planta baixa que cresce nas zonas pantanosas e costeiras da Ásia. Um incêndio, em 1884, destruiu por completo o tecto e as vigas de madeira que o suportavam mas a rua onde ecoavam, em tempos de antanho, os sons produzidos pelos muitos carpinteiros, mantém intacto o seu encanto, com as suas casas térreas e de um piso, os seus templos silenciosos, as suas lojas chinesas de comércio, onde se negoceia como sempre se negociou, como se os relógios tivessem parado. Passo pela Old Court House, principal centro administrativo em finais do século XIX que actualmente abriga o Complexo do Turismo de Sarawak, aprecio o Brooke Memorial (família que governou Sarawak desde que deixou de estar sob o controlo do Brunei e até à chegada dos japoneses, durante a II Guerra Mundial), no meio do pátio, e, já do outro lado, ouvindo o marulhar das águas do rio, sento-me na Square Tower, admirando homens solitários em humildes embarcações, remando para cá e para lá, fustigados pelos raios quentes de um sol inclemente que sobe no azul do céu e que, com o seu brilho, transforma o Sarawak em mil espelhos.

De mil vozes e de outras tantas fragrâncias é feita a vida da Jalan Gambier, uma das mais atmosféricas da cidade, com as ervas chinesas e especiarias indianas expostas de forma ordenada em pequenos bazares que avançam sobre os passeios. Um retrato do rico passado de Kuching como entreposto comercial, cada vez mais hipotecado depois do encerramento, em 2008, do antigo mercado, cujo funcionamento remonta ao período que antecedeu o reinado dos rajás brancos (assim foram denominados os Brooke). Esta decisão dos políticos locais, assente no argumento de expandir a área pedonal na orla do rio, é, pelo menos aparentemente, o único verdadeiro foco de tensão entre residentes e governantes. Alegam os primeiros, muitos deles vendedores, que a demolição de algumas das estruturas históricas, como o Cheko Market e o mercado do peixe, ambos erguidos em 1924, e o primeiro museu em Sarawak, datando de 1889, irá hipotecar parte importante de um património fatalmente associado às memórias.

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