Se preferir, em vez do ruído de vozes, desse murmúrio indecifrável ao longo da Jalan Gambier, o silêncio, o viandante tem de estar atento para não perder a entrada na mesquita indiana, a mais antiga de Kuching, construída ainda antes da chegada dos Brooke, no início do século XIX. Desde que não o faça na hora das orações, qualquer um é bem-vindo a este lugar que, através das suas cores, inspira serenidade e convida a permanecer, resplandecente de luz e respirando harmonia. O contraste surge de imediato, em becos escurecidos e passagens subterrâneas por entre casas humildes, antes de desaguar, sob um sol esplêndido, na Jalan India, em tempos zona comercial por excelência de têxteis importados e outros acessórios caseiros e hoje transformada num centro comercial pedonal por onde caminham, às sextas-feiras, depois da oração, jovens muçulmanos de sorriso estampado no rosto.
Ainda mais para lá, na intersecção da Jalan Barrack com a Carpenter, os olhos são atraídos por mais alguns edifícios históricos, como a Round Tower, construída em 1886 e usada pela polícia militar japonesa (kempeitai) durante a invasão. Actualmente, acolhe o Conselho de Artesanato de Sarawak mas muitos dos habitantes locais teimam em não pisar as suas instalações – todos os lugares ocupados pelos nipónicos estão assombrados. Sozinho, sem qualquer fantasma por perto, subi o elevador do Cineplex, de construção recente, e aos meus pés, sublime, estendia-se a relíquia colonial, com os seus telhados protegendo casinhas minúsculas, as ruas calcorreadas por gente sem pressa, como espectros desse outro tempo.
Despegando o olhar do caderno de apontamentos, lançava-o agora ao rio, às luzes que tremulavam nas águas, evocando o dia que, deixando-me as memórias, se extinguia. E a última, de tão irreal, ameaçava permanecer até a memória se apagar:
- Bako?
Uma cópia fiel
- Os portugueses são pontuais.
- Alguns. Mas também conheço muitos holandeses que não são.
A gargalhada mútua soou estridente mas incapaz de abafar o ruído do autocarro que, ao fim de uns minutos, se balança como um velhinho com problemas de locomoção. São poucos os passageiros na rota que nos leva a Kampung Bako. Entre eles, uma menina com uma expressão terna, entretida com a sua boneca e sentada num banco tão espaçoso que as torna, às duas, ainda mais pequenas. A maré baixa, com tudo o que o mar recusa aceitar, confere à aldeia uma existência nostálgica, atenuada pelas suas casas e telhados de cores fortes debruçando-se sobre a água. O barqueiro, de feições alegres, permite que o barco, sob um céu bíblico, sulque as águas suavemente. Um homem solitário, acompanhado do seu chapéu de abas largas, navega indolentemente, sorrindo à nossa passagem. À sua frente, protegidos do sol por um toldo, três homens conversam num barco que avança sem pressa. As montanhas, com contornos pouco definidos e acolhendo meia dúzia de nuvens inofensivas, recortam o azul do céu, as paliçadas, construções rudimentares em madeira utilizadas pelos pescadores, emergem da água: uma paisagem tão silenciosa e ao mesmo tempo – ou por isso - tão avassaladora, um lugar mágico que não deixa ninguém indiferente.