Fugas - Viagens

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Bako é um deus na Terra com vista para o paraíso

A tabuleta, pintada de verde, dá as boas-vindas aos visitantes e as árvores, à nossa esquerda, quase órfãs de água e algumas totalmente despidas, transmitem um sentimento de tristeza. Dois meninos, gémeos, com um sorriso malandro, estão decididos a espantar um porco-barbado que teima em aproximar-se da cafetaria. Um ou outro macaco olha de lado, como os papagaios, espreitando uma distracção dos turistas para, sorrateiramente, acometer sobre os sacos que transportam. Um longo passadiço, indicando o início do trilho, ergue-se sobre os terrenos pantanosos e a vegetação não tarda a preencher a moldura da paisagem. O Bako National Park, com os seus 27km2, é um santuário natural e uma amostra fiel da verdadeira essência do Bornéu, um lugar onde se podem encontrar todas as espécies de plantas e tipos de vegetação (um total de 25 de sete diferentes ecossistemas) existentes neste território misterioso e vasto ocupado por Malásia, Indonésia e Brunei. Área protegida desde 1957, o que lhe confere o estatuto de parque mais antigo de Sarawak — é também um dos mais pequenos e dos mais interessantes —, engloba 17 trilhos que, dependendo do que eleger e da hora do dia, podem conduzir ao encontro de alguns dos únicos habitantes do parque. Os biólogos apontam para a existência de 37 espécies de mamíferos e 24 de répteis (apenas uma venenosa), uma multiplicidade de cores e uma profusão de sons que emprestam uma singular magia ao lugar – e o principal encanto reside em seguir, sem ansiedade, esses ruídos que quebram longos minutos de silêncio pelo meio de raízes nodosas que se espraiam como teias, fornecendo uma estranha configuração, um pouco fantasmagórica, ao trilho bem sinalizado.

As gotas do orvalho desfazem-se na terra, um ou outro pássaro chilreia, a vereda mergulha agora numa zona de areia sobre a qual se levanta, em madeira, um outro passadiço para facilitar a caminhada. Nas margens do atalho, a paisagem é surpreendentemente verde e um vento meigo abana as copas das árvores. O Bako National Park, onde os animais, sob protecção há mais de 50 anos, não se sentem ameaçados pelos turistas, é também um extraordinário posto de observação de aves, contando um total de 184 diferentes espécies (algumas migrantes).

- É de uma beleza, não acha?

Abanei a cabeça em sinal de concordância, como se receasse despertar algum animal. Estávamos agora parados diante de uma placa de sinalização. Jalan Telok Pandan Kecil, podia ler-se. Ao fundo, a curta distância de um penhasco, um grupo de macacos-narigudos balança-se de árvore em árvore, acompanhado de guinchos agudos e aparentemente feliz. O percurso torna-se mais difícil, uma descida por escadas que a erosão se encarregou de moldar, em ziguezague, o suor escorrendo pelo corpo, até que se avista um promontório. A respiração, embora ofegante, detém-se. No meio daquela garganta, por onde corre uma língua de areia fina que as ondas, quebrando-se suaves, parecem desprezar, a Telok Pandan Kecil, uma praia deserta, de inigualável beleza, plena de quietude, oferece-se à contemplação, produzindo no turista um sentimento de plenitude. O mar rebrilha, pequenos e coloridos barcos, quase imóveis, conferem-lhe uma atmosfera idílica.

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