Fugas - restaurantes e bares

  • Pedro Cunha
  • Miriam Lago
  • Pedro Cunha

Nossa Senhora das Conservas

Por Luís J. Santos ,

Quem passa pelo Cais do Sodré sente o isco: é o ar, mobiliário e estrutura de loja à antiga em que cintila algo de novo, são ícones das pescas que se conjugam com uma freguesia em animadas e belas conservas, é a iluminação quente que nos atrai até sermos mesmo pescados.

"Não estava à espera que as pessoas aderissem tanto a isto de comer conservas". Não estava Bárbara Matos, que gere a loja e bar de conservas Sol e Pesca, no coração do Cais do Sodré, e não estava ninguém. Convenhamos que andar a comer conservas soa a coisa de tempos poupadinhos, não era moda, não era gourmet, não era nada que ficasse bem a gente moderna e prendada. Atenção ao tempo verbal: não era. Senhoras e senhores, eis a nova estrela do tarde-noite de Lisboa: Sua Excelência, a Conserva.

Foi subitamente no Verão passado que a velha loja do Marreco, fechada há 20 anos mas que, diz-se, era das melhores em artigos de pesca, começou a mostrar nova cara e a resplandecer. Num dia quente de Julho, com o Tejo a dois passos, a Sol e Pesca reabria, as suas prateleiras enchiam-se de conservas, as canas, iscos, redes e fios, carretos, bóias e anzóis rejuvenesciam, o néon reavivava. A velha loja de pesca do Marreco até parecia a mesma mas, na verdade, o que se manteve, foi, resume Bárbara, "o respeito" e "a memória do espaço". Além, já se vê, do restauro de tudo o que podia ser aproveitado, mobiliário e armários incluídos. Agora, a pesca é só decoração e a casa, em vez de dedicar-se à pesca, serve à mesa o fim do ciclo: dá a provar os prazeres das conservas portuguesas, produto de excepção de uma indústria inerente a Portugal em vias de extinção. Mas, com a Sol e Pesca, a conserva não é produto secundário de supermercado nem coisa de exportação ou (que a há) excepção gourmet. É para todos e é servida à mesa com o luxo da simplicidade (e, atenção, preço justo).

A loja, renovada e criativamente respeitada, só pode encher de orgulho qualquer português a quem o mar ainda correr no sangue. Projecto de Henrique Vaz Pato (co-proprietário de outro espaço cumpridor das memórias do seu passado, o restaurante Cantina Lx, na Lx Factory), é gerido, como se um filho pródigo, por Bárbara, rapariga do Norte e a quem as memórias do Sodré pouco dirão. Mas Bárbara dedicou-se cedo à restauração e aos 27 já era dona de um restaurante na Invicta. Quando decidiu rumar a Sul, aproveitou a experiência para dedicar-se a este renovador projecto e é ela que está atenta a cada detalhe.

Na atmosfera de museu vivo da Sol e Pesca, as peças de arte, acima de tudo, são as que estão expostas no mostrador bem iluminado: pelas prateleiras, conservas escolhidas a dedo ("Fizemos um grande trabalho de pesquisa e provas pelo país", explica Bárbara) e com embalagens com designs geniais, entre o encantador e o nostálgico. A salinha adivinha-se e vê-se toda da rua, que a montra nada esconde. À porta, uma mini-esplanada convida a apreciar a navegação (irrevogável) para o futuro do Cais do Sodré. Lá dentro, é um mundo marítimo, com raias em balcão de tampo de mármore, grandes armários de madeira, mesas e cadeiras tradicionais. Por todo o lado, todo o tipo de acessórios de pesca gloriosamente expostos, cartazes e até estatuetas piscatórias, heranças do Marreco, máquinas, ventoinhas e rádios antigos, um candeeiro-polvo, um peixe-balão a esvoaçar.

--%>