Fugas - restaurantes e bares

Um cantinho de sabores aberto ao mundo

Por Fortunato da Câmara ,

É um dos espaços que está a fazer pulsar a zona nobre do Chiado, em Lisboa. Um recanto cosmopolita, onde o chef José Avillez aplica os seus conhecimentos empresariais, de marketing e de cozinha. Um êxito a seguir com atenção.

Passou um ano desde a abertura do Cantinho do Avillez, um dos novos espaços que nos últimos tempos vêm enriquecendo a oferta de restaurantes no Chiado. Outrora deserta e sem rumo comercial, a zona recuperou o estatuto perdido após o devastador incêndio de 1988. Quase um quarto de século passado, voltou a ser um quarteirão de referência onde tudo acontece, com muitos turistas à mistura a trazerem movimento a cada rua.

Mesmo as que não estão no coração do bairro bombeiam vida para a artéria central, rua epónima de Almeida Garrett, que tantas vezes a deve ter calcorreado para participar em acaloradas tertúlias no Marrare do Polimento, café histórico do século XIX de que resta apenas a fachada nos actuais números 56-60. A boémia e os janotas que pintavam de romance o ambiente da época são apenas memória literária, mas ainda hoje o charme continua presente, e cada recanto que se descobre a partir da rua Garrett pede para ser apreciado e vivido com placidez. 

Para este novo élan têm contribuído os vários restaurantes, pastelarias, cafés e padarias que surgiram nas imediações. Um bom exemplo é este "cantinho" que o chefJosé Avillez abriu em Setembro do ano passado na Rua dos Duques de Bragança, que ladeia o hospital da Ordem Terceira e conduz até ao largo do Picadeiro, junto ao Teatro São Carlos. O espaço é de facto pequeno, anda à volta das quatro dezenas de lotação e felizmente bem preenchida, o que obriga a reserva antecipada, especialmente aos jantares. A sala principal tem uma aparência sóbria e moderna.

Entre outros apontamentos vagamente retro no mobiliário e iluminação, uma das paredes simula um chão de madeira corrida num padrão estilizado. O traço marcante do espaço é o painel incrustado junto ao bar, sobranceiro a uma mesa de oito pessoas, que é feito a partir de quinquilharia de cozinha numa alusão ao estilo vintage tão em voga actualmente. 

O inconveniente da boa afluência que a casa tem tido é o facto de, nas reservas para jantar entre quinta-feira e sábado, ter de se optar entre o turno das 19h30 ou o das 22h. Na prática, e à semelhança do que acontece noutros locais muito concorridos - que já são residuais por estes dias -, é o restaurante que determina a hora a que o cliente vai jantar e não o contrário.

O intervalo de tempo entre os dois serviços (2h30) é razoável mas se o primeiro horário "deslizar" os pretendentes à segunda volta podem ter de esperar uma boa meia hora pela sua vez. É óbvio que não se pode empurrar as pessoas da mesa para fora, embora em alguns lugares "da moda" já se tenha visto trazerem a conta sem que tenha sido solicitada - para bom entendedor... Aqui não me parece que isso aconteça, pois percebe-se que a chave está na eficiência do serviço, visível desde a cozinha até à sala, mas não deixa de ser importante conhecer as regras do jogo antecipadamente. 

A comida

O afável acolhimento de uma elegante relações públicas predispôs desde logo o espírito para o jantar noctívago previamente marcado. Chegados à mesa veio o couvert(2,50 euros/pessoa) composto por três tipos de pão fatiado, com a curiosidade de vir em formas de alumínio para pudins, manteiga ligeira e de qualidade, boas azeitonas aromatizadas com cascas de citrinos e um creme leve para barrar que fazia lembrar um gaspacho, e que resultava muito bem com a excelente broa. Carta de vinhos de tamanho razoável e preços eclécticos, com diversas referências disponíveis a copo, bem montada e com opções válidas nas várias categorias.