Chegámos à dúzia. No ansiado baile das estrelas do mais famoso guia gastronómico, Portugal obteve agora a maior representação de sempre. Sinal do muito e bom trabalho que nos últimos tempos vem sendo desenvolvido pelos chefs cozinheiros mais activos e criativos, mas também do reconhecimento internacional que vão granjeando. Mesmo assim, fica ainda um certo sabor a pouco, já que há a consciência de que também o trabalho de outros mereceria igual reconhecimento. Mandam os critérios dos enigmáticos inspectores da Michelin, aos quais frequentemente se atribui um deficiente conhecimento da nossa realidade e um excessivo apego aos padrões da alta cozinha francesa. E as queixas não só nacionais. Também em Espanha choveram este ano fortes críticas.
As classificações da edição para 2012 do Guia Michelin para Portugal e Espanha foram desvendadas no final da semana passada, num cerimónia que decorreu em Barcelona e, em boa verdade, nem se pode falar em surpresas. Há muito que entre profissionais e gente ligada ao meio da gastronomia se sussurrava a probabilidade de aumentar o número de restaurantes estrelados em Portugal. Isto associado a uma maior atenção dos responsáveis pelo famoso guia vermelho ao que se passa no nosso país, que equacionariam mesmo a hipótese de a cerimónia de apresentação da edição 2013 poder ter lugar em Lisboa. Uma possibilidade que, no entanto, poderá até parecer um tanto precoce, tendo em atenção que só há dois anos foi quebrada a tradição de décadas de realização em Madrid. No ano passado o palco mudou-se para San Sebastian e este ano e para Barcelona, pelo que se o próximo viesse a ser montado em Lisboa isso constituiria um inegável sinal da crescente importância dos nossos profissionais. A ver vamos.
Quanto à presente edição, o destaque vai, naturalmente, para o The Ocean e o seu chef, o jovem austríaco Hans Neuner. O restaurante do Vila Vita Parc Hotel, em Armação de Pêra, Algarve, foi distinguido com a segunda estrela, passando a acompanhar o vizinho Vila Joya (Albufeira), desde 1999 neste escalão.
As outras novidades são a conquista da primeira estrela para os restaurantes Feitoria, no Hotel Altis Belém (Lisboa), e The Yeatman, no hotel com o mesmo nome (Vila Nova de Gaia), obra dos chefs José Cordeiro e Ricardo Costa. Ambos tinham já antes conquistado idêntica distinção, curiosamente ao serviço da mesma casa, o restaurante Largo do Paço, na Casa da Calçada (Amarante).
Quanto aos restantes membros da constelação estrelar Michelin, destaque-se ainda o facto de o lisboeta Tavares ter conseguido manter a distinção, depois de um ano de vida atribulada que passou pela saída do chef José Avilez e a posterior chegada de Aimé Barroyer. Bem vistas as coisas, é o que se poderia classificar como uma estrela atribuída a crédito, já que terá sido seguramente mantida mais pela reputação devida ao actual responsável pela cozinha do que pelo desempenho da casa ao longo do ano. Pela negativa, a assinalar a perda da estrela pelo algarvio Amadeus (Almancil), uma notícia que até nem precisaria de confirmação, já que o restaurante acabou por sucumbir às divergências internas que levaram ao encerramento de portas.