Fugas - Viagens

Enric Vives-Rubio

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Pelos caminhos da guerra civil e da memória histórica

No vale sobranceiro a Benquerencia de La Serena, a estrada para Puerto Hurraco atravessa o montado em longas rectas a perder de vista. Um desses troços serviu, até 1938, como pista de um aeródromo republicano (Lat. 38º40.078N, Long. 005º30.244W). A casa onde os pilotos estavam instalados, mais tarde ampliada, ainda lá está, mas encontra-se em mau estado. A pouca distância, existem dois acessos a um refúgio antibombas, separados por uma depressão de terreno onde caiu uma bomba, diz o nosso guia.

Os últimos locais onde nos leva Antonio López, que há oito anos se dedica ao inventário de todos os monumentos militares da guerra civil em La Serena, são dois bunkers franquistas. Na estrada entre Castuera e Orellana La Vieja, na margem do rio Júzar, fica um dos mais completos e preservados da região (Lat. 38º57"5.02""N; Long. 5º.35"31.21""W). Com oito posições de tiro de artilharia, foi construído e ocupado pelas tropas nacionalistas para controlar a passagem do curso de água, um afluente do Guadiana. Fica ao lado de uma ponte da qual ainda existem hoje os respectivos pilares e esteve ocupado até 1940. De morada de soldados passou a habitat de andorinhas que reagem com nervosismo à presença humana, entrando e saindo pelas aberturas em voos rasantes.

Para chegar ao bunker de Campanário (Lat. 38º50.319"N; Long. 005º33.951"W) há que sair da localidade pelo camiño de los rojos, assim conhecido por ter sido feito no tempo da II República espanhola. A construção, ainda iluminada pela luz crepuscular que confere uma estranha uniformidade acastanhada à terra, começa a ver-se de bastante longe. Já só restam os redutos e as posições de fogo, pois a cobertura desapareceu há muito, mas pela área vê-se que era uma construção grande e importante. É um dos poucos locais que está identificado e uma placa informa que este bunker, controlado pelas forças da 122ª Divisão do Exército do Sul, esteve no epicentro da ofensiva franquista e da contra-ofensiva republicana de 1938, que viria a estabilizar a frente quase até ao final da guerra.


Castuera e Montijo, as prisões

Castuera é uma pequena localidade com 10 mil habitantes, os mesmos que tinha no tempo da guerra civil. Vive sobretudo da agricultura e da produção de queijo de ovelha, mel e torrão, que é uma especialidade local. Depois da ocupação de Mérida, Cáceres e Badajoz pelos franquistas no Verão de 1936, a capital da Estremadura foi transferida para aqui. Caiu em Julho de 1938.

A rota histórica propõe ao visitante seguir os passos do poeta Miguel Hernández, que esteve em Castuera durante a Primavera e o Verão de 1937. O Frente Extremenho, jornal em que colaborou com os seus poemas, já não existe, mas o local onde funcionava a redacção está identificado. Outro ponto relevante é o actual edifício do casino, sede do governo civil republicano. A pedido, os responsáveis permitem o acesso à Central do Estado Maior, uma divisão protegida de onde se controlavam as transmissões civis e militares, e que ainda ostenta inscrições de época nas paredes.

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