Fugas - Viagens

  • Sérgio Azenha
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Trinidad, a perolazinha cubana

— Desculpe incomodar novamente.

O filho apertava-lhe a mão esquerda.

Sarangonga ay ay ay
Sarangonga ay ay ay

Compay Segundo remete-se ao silêncio. Ela prossegue.

— Queria apenas agradecer-lhe a água. Ele está bem melhor, como pode ver.

A criança mostrou-me o braço, com uma ténue mancha rosada, como se eu fosse um médico num hospital a céu aberto.

— E gostava de o convidar para jantar amanhã em nossa casa. É uma casa humilde mas seria um grande prazer para nós, para mim, para o meu marido e para o meu filho, se o senhor aceitasse o convite. Aqui tem a morada, é fácil de encontrar.

A tarde esvai-se, os dois abandonam a praia, Kenya e o namorado aproximam-se.

— Então, está combinado?

A memória afogara-se em rum.

— Já não te lembras? Logo à noite, na gruta. Esperamos por ti.

O olhar vagueia por aquela enorme extensão de areia, cinco quilómetros de baía que a corrente do oceano foi formando ao longo dos séculos e onde vão despontando empreendimentos turísticos com vista para as águas azuis, um luxo e uma excentricidade que contrastam com a humildade daqueles que, aos fins-de-semana, contam os tostões para pagar o transporte até Ancón e de volta a Trinidad, logo que o sol se põe e o rum se esgota em garrafas que, como os bolsos, parecem estar furadas.

A noite cai sobre a cidade, as luzes tremulam, as crianças brincam nas ruas, os mais velhos sentam-se em cadeiras de espaldar oblíquo, balançando para trás e para a frente, ora pousando os olhos na televisão, ora nos transeuntes, numa indolência que tudo contagia à sua volta, vivendo um tempo que não é deste tempo. Uma menina, com umas bochechas bem redondas, dança na rua, acompanhando o som que vem do interior da casa.

— Como danças bem, digo-lhe eu.

— Gracias, responde ela, com um sorriso meigo.

O pai, ouvindo vozes, preenche agora a moldura da porta e não demora dois minutos a convidar-me para entrar, enchendo um pequeno copo de rum que faço subir, brindando a ele e à mulher.

— Tio, bailas comigo?

Com a promessa de voltar, uns dias depois, trazendo comigo uma garrafa, despeço-me e, durante alguns minutos, enquanto vou vencendo a subida íngreme, pelo mesmo caminho que leva à Ermita de Nuestra Señora de la Candelaria de la Popa, parte de um antigo hospital militar espanhol, ainda escuto a música que sai daquela casa simples mas de gente tão hospitaleira, dando tudo o que pode dar, que é quase nada se exceptuarmos o sorriso, a simpatia, o humor, a energia positiva.

Os corpos estão banhados em suor, as luzes de múltiplas cores incidem sobre a multidão, o som da música leva-me a olhar o tecto da gruta que abriga a Disco Ayala e a desconfiar da sua capacidade para suportar aquela potência. Ao fundo, perto do bar, avisto Kenya e os amigos. A geografia também percorre os caminhos nocturnos, como os morcegos, mas com mais vontade de viver e de beber.

— Salud!
— Salud!


Verdadeira pérola

Através da janela redonda, o quadro que se me apresenta, ao início de uma manhã radiosa, pincelado de matizes que vão do amarelo ao ocre, do pastel ao rosa, do verde ao azul, com os telhados uniformes encimados pela proeminente torre do Convento de São Francisco, dominando a silhueta de Trinidad, revela a clara inspiração de Diego Velázquez quando, há 500 anos, fundou aquele que é, nos dias de hoje, um dos centros urbanos mais característicos e melhor conservados das ilhas caribenhas, um extraordinário hino à infinita beleza arquitectónica colonial.

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