Fugas - Viagens

Paulo Ricca

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Uma aventura nas aldeias do xisto

Em Fajão, diz-nos Vítor Pereira, a maioria das casas estão habitadas, ainda que algumas só no Verão. Por isso, concede, o dinheiro aqui investido na recuperação "valeu a pena" "em algumas aldeias [do xisto] nem sequer vive ninguém, não sei se justifica". Antes as pessoas vinham por causa do restaurante, "almoçavam e iam embora", agora "vêemse a passear e a fotografar". No Verão, a residencial está "quase sempre lotada" e ninguém nega que a piscina, no topo da aldeia, atravessando uma parte de casas novas, foi um bom investimento. Pena é a loja oficial da rede de aldeias de xisto estar fechada - abriu em Setembro de 2008, mas "não chegou a ser conhecida".

Pena, cenário telúrico

Não é fácil chegar a Pena. A estrada é estreita, sinuosa e esburacada; a iluminação, descobriremos depois, escasseia. Mas ainda é dia e o cenário é incrivelmente telúrico: ora atravessamos bosques de pinheiros e eucaliptos ora miramos rudes escarpas, num sobe e desce por nenhures. Temos um primeiro vislumbre dos telhados vermelhos num amontoado escuro, e é depois de uma curva (é sempre assim nestas estradas imprevisíveis) que surge o deslumbramento, a aldeia (contraste de pedra e branco) a trepar de um lado, do outro paredes de rocha, em frente a explosão de amarelos e castanhos que é a natureza outonal bem lá em baixo, uma ribeira brava, saltando de cascata em cascata, de rochedo em rochedo.

Atravessamos a pequeníssima ponte de pedra para paralelos novíssimos e duas placas a indicar, cada uma para o seu lado, Aigra Velha e Comareira também aldeias de xisto que se encontram subindo a serra dispostas como pequenos ninhos de águias. Parece que estamos sós nós e uma pequena matilha de cães que nos recebe, numa espécie de estacionamento virado para os campos e que segue numa rua à "margem" da aldeia (quase uma fortaleza, fechada dentro de si) até se tornar terra e pedra e embrenhar-se no pinhal. Uma porta bate ao longe, uma mulher segue apressada e fecha-se em casa de resto, só o barulho constante de águas e pássaros nesta terra conhecida pelos seus castanheiros, centenários, asseguram-nos.

Seguimos, portanto, que o horizonte é curto: no topo da ruelazinha que penetra na "muralha", uma casa de xisto desprende-se de um rochedo e é fácil ver que uma reabilitação passou por ali. Chama a atenção pelo varandim de madeira negra, de formas retorcidas, em cima da rocha que é a entrada. À esquerda entramos definitivamente no "castelo" (e aqui o termo medieval não parece de todo descabido), na Rua do Quelho (as placas parecem de um parque temático), por uma arcada comprida que é casa de lado e por cima e está restaurada (mantém-se o xisto e a madeira negra). Emergimos da arcada e voltamos os olhos para trás para um momento de postal turístico: por cima do arco, varandinha impecável, do lado, uma escada íngreme que desemboca sob uma mini-pérgola na entrada da casa.

Estamos em território serrano e na Pena esse ambiente respira-se plenamente. As ruas não passam de ruazinhas, que desembocam em larguinhos (parecem pátios comunitários, alguns com bancos e fontes), descem e sobem em escadarias inusitadas (e apertadas). O xisto está presente e talvez domine as construções em namoro com a madeira, mas defi nitivamente não está sozinho no cimo e nas "margens", são as casas modernas que dominam, são o invólucro que preserva o núcleo de pedra. Nem está todo recuperado. Entre os edifícios que foram (estão a ser) restaurados com mais ou menos marcas contemporâneas, há outros que continuam "velhos", alguns abandonados. Entre estes, alguns são apenas currais o que, aliás, nem sequer é novidade, na tradição destas construções, o rés-do-chão seria para o gado. É o que nos diz Lurdes Miguel, 39 anos, a única pessoa com quem nos cruzamos (o resto está a trabalhar no campo, diz-nos), que vem dar comida às ovelhas que se abrigam num destes edifícios, bem no centro de Pena. Ela mora mais acima, numa casa "mista": "metade era de xisto e parte ainda está em xisto, para cima reconstruirmos". Sem xisto. "Os apoios eram só para metade. Quem é que pode pagar?", pergunta sem esperar resposta. Diz, aliás, que a maior parte dos habitantes permanentes não vive nas casas de xisto. Essas são só para os fins-de-semana, altura em que há mais gente na aldeia. Não tem dúvidas de que com o xisto a aldeia "está mais bonita" e este "trouxe mais movimento, até pessoas a passear" e, enquanto não for de mais, Lurdes aprecia essa nova vida ("isto é bom, mas às vezes sossegado de mais").

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