No Galaxy, atracado ao lado do Easy Riders, já se prepara o almoço. O cheiro a peixe impregna o ar. Ao largo, uma bonita escuna, com as suas velas azuis e a madeira dourada pelo reflexo do sol, parece pedir uma moldura para o cenário ser perfeito. Descoberto nos anos 70 por mochileiros, o Vale das Borboletas, com acesso por mar ou por um trilho exuberante de vegetação que conduz até à aldeia de Faralya, no alto da colina, está inundado de cheiros - dependendo da altura do ano, aqui pode encontrar menta, jasmim, orégãos, anémonas, mimosas e até árvores de grande porte, como ulmeiros.
À hora certa, o barco deixa para trás o Vale das Borboletas, que ganha agora uma expressão ainda mais bela, com os seus campos verdes no final da garganta que se abre ao mar, com a sua faixa amarelada de seixos e areia que beija as águas ora verdes ora azuis. Erguidas aos céus, as montanhas, integradas, desde 1995, numa área protegida onde é totalmente proibida a construção, provocam temores pela sua imponência e exercem, ao mesmo tempo, um forte magnetismo em quem nelas deposita um olhar.
No interior do Easy Riders, uma senhora turca, com um olhar sem expressão, provavelmente cansada da indiferença dos turistas, prepara panquecas que exalam um odor ao qual se torna difícil resistir. Sentada à volta de uma mesa, à espera do almoço que não há-de tardar, uma família ri-se muito com os gritos de uma criança.
-Gelados, gelados, oferece um loiro oxigenado com uma espessa corrente prateada ao pescoço logo que os passageiros retomam os seus lugares, a maior parte deles sobre as toalhas que recebem os fortes raios da bola amarela que recorta o azul do céu. Um fotógrafo, com barba de dois dias e uma t'shirt vermelha à volta da cabeça para o proteger do calor, procura convencer os turistas a ficarem com um registo daquele dia capaz de produzir sentimentos, sensações e emoções tão díspares.
Ilha de São Nicolau, a do Pai Natal
O cheiro a peixe inunda o ar e os passageiros começam a ocupar as mesas para o almoço que será servido daí a instantes, antes de o barco se deter, por mais uma hora, numa pequena praia cuja água, de tão azul, parece unir-se ao céu numa perfeita harmonia. A refeição, regada com algumas cervejas, provoca natural sonolência nos turistas, deitados agora ao sol como se aquele fosse o único prazer da vida. Ao largo, começa a avistar-se a Ilha de São Nicolau, assomando, como que por encanto, entre pinheiros e alecrim, os vestígios de uma distinta cidade bizantina e a sua igreja de grandes dimensões, parte dela intacta. Em tempos de antanho, a ilha foi um importante porto de escala para embarcações comerciais e de passageiros provenientes da Europa, bem como um importante lugar de peregrinação.
-Sabes que foi aqui que teve origem o nome do Pai Natal?
O jovem, de cabelos claros, de sorriso expressivo, interroga-me e deixa-me, por breves segundos, sem palavras, enquanto o pensamento voga pelas paisagens da Lapónia, onde as renas puxam um trenó que conduz aquela figura simpática de longas barbas brancas.