-Não. Não sabia.
A lenda, a ser verdadeira, confirma a versão do rapaz que agora me vira as costas antes de mergulhar naquelas águas cristalinas. Nascido em Pátara no ano 300 d.C., São Nicolau foi bispo de Mira, actual Demre, próxima da cidade de Antália. A ele foram atribuídos alguns milagres mas foi a sua grande generosidade para com as crianças que lhe trouxe popularidade. Alguns turistas sobem ao topo da colina, passam fugazmente pela igreja e perdem-se pelas ruas outrora cheias de vida, precisamente no momento em que uma leve brisa atormenta as árvores. A partir de São Nicolau, é difícil, por mais insensível que seja ao contacto com a natureza, não se sentir absorto com a vista que se espraia até à linha do horizonte, aquele mar de cores mágicas, de águas tranquilas e aquelas montanhas, de um lado e do outro, que inspiram respeito. Na sua maioria, os excursionistas revelam desprezo pela história de um povo com história. Junto ao cais da ilha, onde agora o barco está atracado, as actividades de lazer ganham mais adeptos. Puxados por uma pequena embarcação a motor, devidamente sentados em insufláveis para dois e três lugares que desenham imagens bizarras na água, os turistas continuam a gozar dos prazeres de um passeio que, para muitos, ficará como uma das recordações mais gratas de uma viagem à Turquia, colada, como uma lapa, na alameda das suas memórias.
O sol oblíqua e derrama uma tonalidade dourada no momento em que se começa a avistar a baía de Ölüdeniz. Ao longe, vê-se a língua de areia que seduz a lagoa Azul, agora órfã na sua solidão (o acesso é vedado a partir das seis horas da tarde) e a presença humana na praia reduz-se a algumas dezenas que perscrutam o céu à espera da despedida daquele sol que vai ficando cada vez mais laranja. Do alto do Monte Baba, homens e mulheres continuam a lançar-se no vazio, sob aquele manto ainda azul e como que enfeitiçados com a magnificência que têm a seus pés. Na rua que parte da praia, onde os restaurantes e os bares começam a encher, a mulher dos olhos negros reconhece-me:
-Então, ficou arrependido?
Limito-me a sorrir e continuo a caminhar até à esplanada onde, tenho a certeza, uma cerveja fresca estará à minha espera, acompanhada de uma música cheia de sentimentos que me irá provocar uma nostalgia tão agradável.
Kabak, num sono profundo
As ruas estão desertas àquela hora da manhã e a luz ainda é opaca.
Ölüdeniz dorme envolta nos ecos do dia anterior quando inicio a subida da estrada que rasga a montanha. Aqui e acolá ouço o murmúrio da água que corre a poucos metros. Correspondendo ao meu sinal, o camião do lixo detém-se e o motorista convida-me a subir. Não articula uma palavra em inglês mas todo ele emana simpatia e uma enorme disponibilidade para comunicar. Ao fim de três quilómetros sigo o meu caminho, novamente entregue à solidão, passo por uma mesquita com um minarete branco que fura o céu e observo um pássaro que, por sua vez, deixa resvalar o olhar para uns cachos de uva ainda à espera de amadurecer. Quando chego a Faralya, já com uma luz diáfana, faço uma pausa para um café num pacato jardim de uma humilde guesthouse, com o sugestivo nome de Jardim das Oliveiras.