-Então por que casaste com ela?
Uma americana, indiferente à minha presença, interroga um homem mais novo do que ela quando este lhe confessa que a mulher, àquela hora remetida aos prazeres matinais da cama, não vê qualquer interesse em efectuar caminhadas, por mais idílicos que se mostrem os lugares.
Como aquele que, da mesa onde me encontro, onde repousa uma chávena de café negro, avisto ao fundo, a praia de Kabak, parcialmente escondida por entre os pinheiros, como se se sentisse envergonhada ou pouco disponível para se dar a conhecer. Prossigo a minha caminhada, encosta abaixo, ora passando por parques de campismo que respeitam a natureza, ora por espaços que são convites à reflexão. Buganvílias despontam aqui e acolá por entre os pinheiros e sente-se também o intenso fragor aos roseirais. Um campo de milho por onde entra o azul do mar, tão límpido que é capaz de ferir o olhar, anuncia que o percurso a pé chegara ao fim. À minha frente tenho agora uma praia solitária e, uma vez mais, o céu e a água parecem gémeos que não passam um sem o outro. Solitária? De repente, desvio os meus olhos para a direita, até um estrado em madeira suspenso em quatro barrotes, e vejo um homem envolto numa espécie de mortalha. Por momentos hesito, deixo que a angústia me invada e interrogo-me se estarei, pela primeira vez na minha vida, a dividir o paraíso com um morto.
-Sozinho? Eu e um morto?
Aproximo-me vagarosamente e ouço a sua respiração. A minha alma fi ca em paz quando percebo que afinal divido o paraíso com um vivo que dorme um sono profundo. Mergulho com prazer naquela água antes do regresso, horas depois, a pé e à boleia, a Ölüdeniz, que agora recupera a sua agitação.
Kayaköy, o melhor para o fim
As camponesas, com os seus vestidos típicos e as suas calças bizarras, misturam-se com as mulheres urbanas trajadas de forma elegante e com os turistas semidespidos ou mesmo despidos de valores. Os legumes e as frutas, muito frescos, rivalizam com as especiarias, com o artesanato local, com as roupas. Uns compram, outros vendem, outros simplesmente passeiam entre aquela multiplicidade. Hoje é terça-feira, dia do grande mercado de Fethyie, cidade cujas origens remontam ao tempo em que os lícios aqui construíram Telmessos, há mais de 3000 anos. Fethyie, que presta homenagem a Fethi Bey, piloto (o primeiro na Turquia) local e herói de guerra que morreu quando o seu avião se despenhou, foi arrasada por dois terramotos, em 1856 e em 1957, mas ainda restam vestígios de um passado glorioso, como alguns túmulos rupestres situados na montanha rochosa que vigia a cidade. Amintas, que data de 350 a.C., de estilo dórico, é o mais bem conservado e ali se pode chegar depois de pagar uma modesta contribuição, verdadeiramente insignificante quando se olha, escavada na pedra, aquela fachada que reproduz um templo grego.
De volta à cidade, deambulo uma vez mais pelo mercado, ainda e sempre colorido e ébrio de vida, espreito o museu local, percorro o caminho até ao porto, onde barcos de todos os tipos e portes balançam nas águas e, a escassos metros, as ruínas de um antigo teatro, onde aceito, com alguma tristeza, a ideia de que aquela viagem está prestes a chegar ao fim. Nas esplanadas, um pouco por todo o lado, há turistas ingleses (há mais de sete mil a viver permanentemente na cidade) que bebem cerveja e se limitam a ver o mundo passar à frente dos olhos. A partir daqui, dirijo-me para norte, até ao lugar que, antes de chegar, olhando apenas para as imagens que promovem esta zona, mais me seduziu. E, por essa mesma razão, para o viver mais intensamente, de preferência ao final da tarde, o deixei para último, para que aquele derradeiro suspiro perdurasse eternamente na memória feliz de um tempo feliz.