-Não quer fazer um cruzeiro no Golfo de Fethyie?
A luz fulgurava no negro daqueles olhos providos de expressão que se pousavam em mim. Por momentos desviei o olhar, na direcção dos barcos, depois dirigi-o para os estrangeiros que se preparavam para entrar e voltei a afogá-lo na mulher de tez morena e com um cabelo da cor do carvão. No início, mostrei relutância mas, depois de passear nas brumas da dúvida, aceitei a proposta, na certeza de que, mesmo não me identificando com aquele tipo de passeio, seria sempre a opção mais barata para navegar nas águas calmas do Mediterrâneo. A mulher sorriu, um sorriso que parecia mecânico, e disse:
-Vai ver que não se arrepende.
Vale das Borboletas, dar tempo ao tempo
Sob aquele sol inclemente, as águas projectavam um resplendor de metal. Os barcos não se mexiam e ostentavam, de forma bem visível, o nome das agências para quem trabalhavam Pegas, Easy Riders, Galaxy, Focus, Eftelya e Relax. Se estivessem em terra firme e não ancorados naquelas águas transparentes poderiam muito bem ser casas de alterne. A areia, por onde caminhavam agora dezenas de turistas, na direcção do pontão que permitia o acesso às embarcações, ardia sob os pés. Numa tabuleta em madeira, debaixo de uma palmeira que se debruça sobre a praia, as autoridades locais, pensando nas gerações vindouras, pedem para proteger Ölüdeniz. Não há lixo pelo chão.
O mar rebrilhava quando, finalmente, os motores foram ligados e o barco se começou a afastar, lentamente, da costa, deslizando de forma dócil sobre as águas azuis. O ar torna-se subitamente mais macio e os céus enchem-se de adeptos do parapente. No convés, dezenas de colchões foram de imediato cobertos de toalhas, onde algumas mulheres, inatingíveis rainhas de beleza, se deitam para adormecer em segundos.
-Bebidas frescas, bebidas frescas, anuncia um dos elementos da tripulação.
Um homem com mais tatuagens do que cabelos, com uma barriga que se assemelha a um barril, pede duas cervejas de imediato. E o dia ainda mal começou. Um menino loiro, cheio de caracóis, com uma camisola da Turquia vestida, cujo vermelho sobressai contra aquele céu e aquele mar, olha o inglês com uns olhos despidos de humor.
-Gelados, gelados, apregoa outro elemento, quase todos eles jovens.
Três raparigas ainda com vestígios das batalhas hormonais, com a pele muito branca, estendem-se ao sol, à procura de outra tonalidade. Um casal de namorados beija-se demoradamente sob aquele disco cada vez mais abrasador. Para eles, o mundo acaba hoje. O mar perde-se no horizonte e as montanhas retalham parte da paisagem.
O Easy Riders navega durante meia hora antes da primeira paragem. Com alguma dificuldade, atraca no Vale das Borboletas, onde irá permanecer durante os próximos 60 minutos. Por amor de Deus, o cenário vale mais de uma hora. Aqui, os relógios deveriam ser proibidos; aqui é preciso dar tempo ao tempo. Na praia, onde abundam os seixos e escasseia a areia, dezenas de tendas dão vida a um lugar encantador, concorrendo com borboletas (mais de 80 espécies) de múltiplas cores que transformam o espaço num verdadeiro museu ao ar livre. Os barcos, cheios de turistas, vão chegando e acotovelam-se uns ao lado dos outros. Novos e velhos, uns mais excitados, outros mais discretos, saltam do convés para a água onde os cardumes se passeiam, quase indiferentes àquele brusco romper do silêncio. Duas jovens orientais fazem poses estranhas para a objectiva e um casal, com a pele da cor de uma lagosta, cobre-se de areia. Há turistas a quem umas asas assentariam na perfeição, para voarem para longe, ao contrário das borboletas, que as queremos bem perto de nós.