"Quando a vila estava viva, as paredes das casas eram feitas de argamassa e pintadas alegremente em tons de rosa escuro. As suas ruas eram mais vielas, de tão estreitas, mas não havia qualquer sensação opressiva de clausura, pois os edifícios agrupavam-se na encosta de um vale para que cada habitação recebesse luz e ar. Na verdade, a vila parecia ter sido maravilhosamente concebida por algum génio cujo nome se tinha perdido, e não havia, provavelmente, nenhum outro lugar como aquele em toda a Lydia, em toda a Caria ou em toda a Lícia."
É assim, desta forma, que Louis de Bernières descreve Kayaköy em Pássaros Sem Asas (Edições ASA), uma história épica e trágica que fala de amor e de uma guerra que separou gregos e turcos que durante anos e anos viveram em sintonia. No livro, o lugar surge sob a designação de Eskibahçe mas foi na vila que me olha da encosta, com todas as suas casas ou o que resta delas viradas ao sol, que o escritor inglês encontrou inspiração e se baseou para narrar, com grande sentido de humor, o estilo de vida de uma população que no início do século passado contabilizava duas mil almas. Ao longo daquelas ruas estreitas, por onde as cabras, os lagartos e, às vezes, as tartarugas se deixam contemplar, permito que a minha mente vagueie ao encontro da história, tentando imaginar como era a vida de Kayaköy (em grego Karmylassos) há menos de cem anos, antes da guerra entre os dois países que ainda hoje vivem de costas voltadas. Até 1923, enquanto foi conhecida como Levissi, era habitada, na sua maioria, por cristãos ortodoxos gregos. Estes falavam turco e escreviam com o alfabeto grego mas os turcos, que naturalmente falavam turco, também escreviam com o alfabeto grego. Eram os dias da paz, da cumplicidade e até de casamentos entre diferentes comunidades. Com o eclodir da guerra, gregos e turcos assinaram um acordo que conduziu à permuta de povos. Não ficou um único cristão para contar a história e até mesmo os ossos dos antepassados cujos restos mortais ali estavam depositados foram transportados para a Grécia. Os gregos instalaram-se nos arredores de Atenas e baptizaram a sua cidade de Nova Levissi. Quando os turcos chegaram a Kayaköy e viram, pela primeira vez, as casas que não fazem sombra umas às outras entregues à sua solidão, ficaram convencidos de que os gregos ali haviam deixado uma maldição, preferindo construir as suas habitações no sopé da encosta.
-Está a gostar de Kayaköy?
A menina, com o lenço a cobrir-lhe a cabeça, regista na sua câmara aquele lugar que parece esquecido. Ao fundo, no vale, um homem trata com carinho o camelo que tanto o pode ajudar no cultivo dos campos como a levar turistas a passear pelo meio daquelas vielas impregnadas de história, mais triste do que alegre.
-Sim, muito. É o ponto alto de umas férias inesquecíveis. Mas é do povo, tão hospitaleiro, que levo as melhores recordações.
Ela ouve-me com atenção, sorri de felicidade, orgulhosa do seu país e da sua história que entra pela câmara como se desejasse ter presente e não apenas passado. Ao longe, uma bandeira da Turquia deixa que o vento lhe indique o rumo.