Desço até à Basílica Panayia Piryiotissa, perco-me a olhar para os murais, para os mosaicos no chão e para o mármore no altar. E imagino aquele espaço repleto de crentes num tempo de paz. Logo à saída da igreja, há um pequeno edifício que contém ossos humanos. Levanto a cabeça e vejo de novo aquelas cinco centenas de casas (protegidas pelo governo turco) onde o sol reluz, roubo um figo de uma figueira, peço perdão numa outra igreja pelo gesto menos bonito e subo uma vez mais para contemplar, do alto da encosta, de onde se avista o mar sempre azul, aquele quadro tão belo que confirmara as minhas expectativas. Construída no século XVIII, Kayaköy (kaya significa pedra e köy quer dizer vila) foi parcialmente renovada em 1856, quando um terramoto devastou Fethyie - mais tarde, em 1885, também vítima de um incêndio de grandes proporções. Hoje não é mais do que um museu que nos contempla com melancolia. É com pena que abandono a vila abandonada mas antes ainda me cruzo com a rapariga de lenço colorido na cabeça:
-Espero que volte um dia.
Eu não digo que sim mas tenho a certeza de que irei rever aquelas vielas, aqueles lagartos, aquelas cabras, aquelas tartarugas e aquelas casas que recebem o sol como quem recebe um amigo na sua casa. E talvez até me encontre com ela, já mais velha mas com o mesmo sorriso tão genuíno, tão doce. E, por breves segundos, recordo as palavras de Louis de Bernières quando fala daquele lugar mágico. "Continua a dormir o sono da morte, sem um epitáfio e sem ninguém para a recordar." Ninguém, não. Eu encarregar-me-ei de a lembrar, de a fazer correr nas cada vez mais estreitas avenidas da minha memória.
O sol já se havia retirado quando regressei ao hotel, em Ölüdeniz, ainda a tempo de um mergulho na piscina. A uns metros de distância, o homem de bigode e barriga maternal, agora com a alma domiciliada na serenidade, joga uma partida de bilhar com o filho e olha com um olímpico desdém para as águas que se agitam com as minhas braçadas.
Quando ir
A melhor época do ano para visitar Fethyie é no Verão mas na Primavera e no Outono são opções a considerar. O clima é agradável e o número de turistas sofre uma redução drástica.
Como ir
A Turkish Airlines efectua voos diários entre Lisboa e Istambul, com preços a rondar os 250 euros (valor que pode chegar aos 600 no Verão). A partir da capital turca, são várias as ligações a Antália. Um bilhete de ida e volta pode ser adquirido por menos de 90 euros.
O que fazer
Além dos lugares mencionados, esta zona da Riviera da Turquia, situada na província de Mugla, oferece inúmeras atracções a quem desejar permanecer por um período mais longo. Se Mármaris é a capital do hedonismo, com os seus bares, restaurantes e hotéis no passeio marítimo junto ao porto, Dalyan proporciona momentos mais tranquilos e a possibilidade de efectuar, de barco, uma visita às ruínas de Kaunos, conjunto de grande interesse arqueológico. Pátara é outra das alternativas, com as suas belas praias e vestígios do passado disseminados por uma extensa zona. O caminho lício, um percurso com um total de 500 quilómetros, entre Fethyie e Antália, grande parte junto à costa, é um apelo para aqueles que são milionários do tempo e apreciam o contacto com a natureza. Escolhido pelo Sunday Times como um dos dez melhores percursos do mundo, o passeio pedestre permite ao viajante ver ruínas, aldeias isoladas na montanha, antigas cidades, florestas de cedro e de pinheiros e vistas de cortar a respiração. Se o tempo não lhe permitir, pode sempre optar por não ir além do trajecto entre Fethyie e Faralya. Seguramente não dará por mal empregue o tempo despendido.