Fugas - Viagens

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Pelo Ceará numa 'aventura solidária' de espantos

Por Ana Cristina Pereira

Viajámos até ao Brasil, nos confins do Ceará, para uma experiência de “volunturismo”, a que a AMI desenvolve no município de Milagres.

Embarcaram cinco mulheres preparadas para a canícula, dispostas a vergar o corpo nas terras ressequidas do Nordeste brasileiro. Viajaram até aos confins do Ceará, onde a pior seca dos últimos 55 anos aflige o povo, incapaz de decidir se está perante um aviso de Deus ou uma cilada do demo.

A seca assombra sítios como Genipapeiro, no município de Milagres, a 473,8 quilómetros de Fortaleza, quase sete horas de carro. Era para lá que se dirigia o último grupo de 2014 a embarcar numa “Aventura Solidária”, projecto de “volunturismo” da AMI – Assistência Médica Internacional.

Não fosse a noite já bem entrada quando aterrámos em Fortaleza, poderíamos ter começado logo ali a desvendar o destino. Ao volante da carrinha, a ouvir o rock dos norte-americanos Red Hot Chili Peppers, estava Cícero Ronaldo Severino Rosa, homem encorpado, de pele curtida, traços caboclos.

Nasceu há 31 anos na caatinga, mata amarelada e seca exclusiva do Brasil, onde tanto há lugar para santos milagreiros e almas penadas como para caiporas, lobisomens e mulas sem cabeça. O nome dele não engana. É sinal de devoção a padre Cícero Romão Baptista, “Padim Ciço”.

Haveríamos de subir ao alto da colina do Horto, em Juazeiro do Norte, para apreciar tal fenómeno popular. Para os mais arrebatados devotos que lá vão, o padre Cícero tem origem divina: 1800 anos depois de ter sido pregado na cruz, Jesus Cristo regressou à Terra como sertanejo.

Era grande a minha curiosidade por tão livres interpretações da fé católica — e nem imaginava que encontraria uma imagem de Nossa Senhora de Fátima com os sete anões aos pés, num jardim interior, numa escola de Milagres. A culpa é de Jorge Amado, que me deu um imaginário de Sertão farto em superstições, movimentos messiânicos, profecias de fim do mundo.

“Vou dizer o que aconteceu comigo”, diz-me Cícero, quando, só para início de conversa, lhe perguntei se o padre homónimo era santo ou impostor. Decorria 1994, era Itamar Franco Presidente, tinha o Brasil acabado de trocar o cruzeiro pelo real, um tio fizera um frete, temera seguir viagem com o ganho e pedira-lhe que o entregasse à mulher, a tia Lucileine.

Cícero recebeu as cinco notas de 50 reais, enrolou-as, guardou-as no bolso das calças. Não foi directo para casa. Parou para comer um caldo. Só fora dali percebeu que ao tirar os 50 centavos para pagar o caldo deixara cair as cinco notas. “Padre Cícero, eu não sei o rezar, eu não sei o pedir promessa, mas eu estou pedindo ao senhor para me ajudar.” O restaurante estivera cheio de trabalhadores calejados e ninguém vira o dinheiro. A dona encontrou-o ao varrer o chão e devolveu-lho. “Milagre!”

Não fora a religiosidade espontânea, nem o afamado humor do Ceará a mover as “aventureiras” — Eda, 20 anos, estudante, Soraia, 21, auxiliar de acção médica, Patrícia, 29, enfermeira, Zélia, 32, enfermeira, Lurdes, 42, economista. Fora, sim, a vontade de ter umas férias diferentes e de ajudar a aliviar a miséria alheia.

Cada uma fizera um donativo de 300 euros e preparara-se para viajar até à Guiné-Bissau. O surto de ébola levara a AMI a cancelar tal “aventura” e a tentar desviar quem nela se inscreva para o Brasil — o Brasil do interior, sem turistas nem praias de areia branca, prova inequívoca de desigualdade.

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