Fugas - viagens

Nelson Garrido

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Esqueça o que sabe sobre navios: este não tem defeitos

Na hora de jantar, a sala tem capacidade para acomodar 2968 pessoas. Volto a cruzar-me com Diogo e ele confirma as minhas recentes suspeitas: "Este cruzeiro não tem nada a ver com os outros. Já estive no Freedom of the Seas [o segundo maior barco da RCI], mas não se compara com o Oasis. Este é que é impressionante, pelo tamanho e por tudo o que há cá dentro!".

Na mesma altura, fico a conhecer Javier, o chefe de mesa, e James, o seu assistente. O primeiro é mexicano e, com simpatia, tenta arranhar umas palavras de português com sabor a Brasil. O segundo - grande, sorridente e com ar desajeitado - é dos Barbados. Juntos, vão tornar-se durante toda a semana cúmplices na minha estreia num dos sete pecados mortais: a gula. Para mim, comer era (quase sempre) apenas uma necessidade, mas, no Oasis passei a compreender quem pensa o contrário e defende que comer pode ser mesmo um prazer. A bordo, a hora do jantar passou a ser aguardada todas as noites com ansiedade e quebrei o velho hábito de não comer sobremesa.

Arca de Noé

O primeiro despertar no Oasis, já em alto mar, mostra um navio de muitas caras. Será assim todos os dias. Há os madrugadores que, após o pequeno-almoço, procuram um lugar ao sol - cada vez mais quente à medida que nos vamos aproximando das Caraíbas -, e há os que vão surgindo aos poucos, timidamente, após uma noite longa no casino - um dos espaços mais procurados do barco - ou nos bares, 48 no total, com estilos para todos os gostos.

Gilles e Jeanne são dois dos madrugadores. Vieram do Quebeque, falam apenas francês e, num navio onde quase 80 por cento dos passageiros são norteamericanos, acabam por ser corpos estranhos. "Mas isso não é problema", garante Gilles. "O barco está preparado para receber pessoas de todo o lado. Sejam chineses ou marroquinos, há informação em todas as linguas." Casados há quatro anos, decidiram fazer agora a lua-de-mel que vinha sendo sucessivamente adiada e, apesar do "medo horrível" que Jeanne tem do mar, decidiram arriscar por influência de amigos. "Garantiram-me que nem ia perceber que estava num barco, mas eu não quis arriscar e escolhi um quarto com vista para o Central Park", conta Jeanne. "Na verdade, duvidei dos meus amigos e só aceitei vir para fazer a vontade ao Gilles. Mas sabe, eu só me lembro que estou em mar alto quando vou lá para cima, ao deck 15 ou 16. E, mesmo lá, estou tranquila, porque o navio parece que não se mexe", diz, com um sorriso.

De facto, a excepcional estabilidade do Oasis faz com que muitos se esqueçam que estão num barco. No meu caso, a imagem de O Barco do Amor foi aos poucos sendo substituída por uma espécie de Arca de Noé em versão turística. É que no Oasis parece haver sempre um representante de cada uma das "espécies" de estabelecimento que qualquer turista exigente procura numas férias de sonho em terra firme. É como se entrássemos num universo paralelo, onde o que queremos está apenas à curta distância de uma viagem de elevador. No Oasis, os seis dias e meio da viagem passam num abrir e fechar de olhos, e levar uma vida sedentária é quase criminoso.

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