Consequência de europeus que vão deixando moedas que de nada valem às gentes marroquinas: o banco apenas troca notas e o precioso metal acaba por não passar de peso morto nos bolsos de muitos. Enquanto isso, a negociata prossegue. Um dos nossos companheiros de viagem atreve-se a oferecer "três euros por duas cestas de vime". Mas o valor não baixa de "dua, quatr'eura". Já o custo dos colares é mais oscilante: de um euro cada passou a um euro por dois, depois três, depois quatro...
Abandonamos os comerciantes da auto-estrada de mãos a abanar, mas já com mais traquejo para negócios futuros, a maioria a transpirar ilegalidade. Como um volume de tabaco por 15€ logo após a saída da fronteira de Marrocos (mas cujo valor ia mudando à medida que íamos entrando na Mauritânia: no primeiro posto de controlo custava 13€, no segundo 14€ e no último 20€!) ou a troca de uma tenda por dois volumes entre as fronteiras da Mauritânia e Senegal - uns metros à frente, o mesmo comerciante estaria a tentar conseguir uma tenda por apenas um volume.
À medida que avançamos para sul, a pouca Europa que se consegue encontrar nos portos a norte ou mesmo na capital Rabat - onde dormimos num Ibis Budget cuja noção de desinfecção sanitária se resume à colocação de um papel a indicar tal facto - vai desaparecendo numa paisagem marcada por edifícios por terminar que assim evitam o pagamento de um imposto cobrado após finalização da obra. O urbanismo é assim pautado por pilares a descoberto ou pinturas por executar em localidades que durante o dia parecem fantasma e à noite enchem-se de vida.
Como na primeira vila onde aterrámos para um jantar tardio num dia em que o almoço se resumiu a duas ou três dentadas numa sanduíche e umas quantas batatas de pacote. Em Assilah, depois de um pequeno desvio da auto-estrada que nos levaria ainda nessa noite a Rabat, aproveitamos uma das muitas esplanadas pertencentes aos pequenos restaurantes de onde a comida vai saindo do outro lado da estrada.
Ficamos logo pela primeira, onde uma quente e revigorante harira, uma sopa tradicional marroquina que alguém acusa de ter vindo directamente de um pacote de sopa Maggi, quase nos faz esquecer as horas de caminho de Portimão a Tarifa, as trapalhadas aduaneiras, o aborrecimento do alcatrão. Enquanto saboreamos a adocicada harira com pão, o homem que nos serve vai atravessando a estrada de um lado para o outro com as loiças para compor a mesa onde nos sentamos, com mais pão para enganar os estômagos enquanto o peixe e a carne não se libertam da grelha e com copos XL de chá de menta hiperdoce. Ainda pedimos cerveja. Algo que o nosso interlocutor se presta a arranjar - até porque não houve uma única vez que tivéssemos ouvido a expressão "não temos". Mas a loja que as vende à socapa já fechou e do seu proprietário nem sinal.
As refeições vão chegando enquanto pela rua o movimento não abranda: carros velhos e desconjuntados, homens de crianças pequenas pela mão, mulheres acompanhadas com um trio de garotas de patins, alguém que passeia o cão, bandos de rapazes que se divertem, raparigas que escondem os cabelos ao mesmo tempo que baixam a cara à passagem dos homens-pálidos.