A partir deste último ponto, as paisagens deixam de ser salpicadas de gente e passam a ser pautadas por pedras, pó, gravilha, areia e tufos - o nome com que nos apresentam uma espécie de cactos, que, garantem-nos, são tão duros que se revelam capazes de arrancar uma roda a um condutor mais incauto. Mas os perigos deste solo não se resumem a estas plantas. No lago seco, onde temos a primeira miragem de água (tão perfeita que seríamos capazes de jurar tratar-se do oceano mesmo ali no horizonte), buracões escondidos num solo perfeitamente liso representam cruéis armadilhas para veículos sedentos de alguma vertigem.
A cada passo, a paisagem muda abruptamente. De um piso de areia cercado por plantas que nos indicam a presença de oueds (rios secos) passamos a terra dura, tão estanque quanto alcatrão, para logo a seguir rasgarmos lagos de cascalho. Não é o deserto que os postais mostram. É o deserto do nada. Do vazio. Da ausência total de estímulos: não há cheiro, além do nosso; não há sons, além da música trazida pelo vento. Apenas terra a perder de vista e um céu que nos parece querer convencer ter saído de uma tela.
É um dos engodos do Sara: consegue fazer crer aos que se aventuram pelas suas entranhas que tudo em si é imutável quando na realidade qualquer coisa que nele se encontra se transforma a cada instante. Um oceano seco que também nos embala nas suas ondas, algumas criadas pela passagem de veículos que, ao longo dos tempos, foram desenhando uma espécie de carneirinhos, mas que por vezes nos assusta com uma ou outra vaga maior.
Os cuidados também se prendem com a acção humana na zona: estamos a navegar por um mar de minas, herança do conflito que opõe Marrocos à Frente Polisário. É que, embora já se tenha procedido à desminagem da área - ainda em meados do ano passado a ONU informava ter desactivado mais de dez mil engenhos -, ainda há muitos dispositivos por localizar, fruto de cartas militares perdidas, explicam-nos, e o melhor é não arriscar. Por isso, circulamos entre os montes de pedras (cascalho ou mesmo pneus) que servem de balizas. Ainda assim, mesmo cumprindo o trilho assinalado, há areia para brincar com a tracção às quatro, lombas para exercer, curvas para gingar, degraus para voar. Até porque, como se ouve via rádio, "o mar aqui à frente está crispado".
Pelo caminho, saltitamos, corremos, aceleramos, afocinhamos. E quando, por um momento, perdemos o contacto rádio, compreendemos a armadilha que o deserto vai tecendo: o vento, que não parece dar tréguas por um instante que seja e que molda as petrificadas árvores ao seu capricho, vai varrendo as marcas deixadas e cobrindo as pistas com areia ao mesmo tempo que suaves dunas nos dão a ilusão de o horizonte estar cada vez mais perto. O problema é que depois de um surge outro. E outro. Isto sempre dentro da mesma cúpula que parece manter-nos aprisionados, como se estivéssemos dentro de uma daquelas bolas que quando se agitam cai neve. Só que, aqui, em vez de neve, à noite sentimos que podemos agitar estrelas.