Fugas - Viagens

  • Sousa Ribeiro
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Janela aberta para um mundo azul

Por Sousa Ribeiro (texto e fotos)

À descoberta dos encantos do Golfo de Fethyie, na Turquia, entre a lagoa Azul e a praia de Ölüdeniz ou passeios a pé até à solitária Kabak e ao Vale das Borboletas. Além de nos deixarmos ir ao sabor da corrente nas águas cristalinas do Mediterrâneo, ficamos a saber mais sobre o Pai Natal na ilha de São Nicolau e vamos ao encontro da História na aldeia perdida de Kayaköy.

O homem, dominado por um frémito de energia, fervia de vida e entusiasmo e devia sentir-se orgulhoso daquele bigode já grisalho e do ventre volumoso como um tambor quando, de repente, iluminado contra o incipiente crepúsculo, começou a gritar e a esbracejar dentro da piscina. O filho, apanhado de surpresa, parecia não reagir, assumindo, na sua ingenuidade, que aquele momento também fazia parte das brincadeiras do pai.

Mas um dos empregados do hotel, vendo desenhados os traços do medo no rosto do homem, mergulhou e resgatou o corpo que ameaçava afundar-se e deixar de lhe pertencer. As lágrimas batiam-lhe à porta e, impelido por forte emoção, ainda com a voz trémula e um ar de infinita fadiga, como se os seus olhos tivessem enfrentado uma tempestade, abraçou-se à mulher e ao filho, ao mesmo tempo que olhava de lado, como os papagaios, para a piscina agora mergulhada num silencioso remanso.

Para muitos turcos, com vidas de tantas provações e de tão poucos prazeres, uns dias de férias em Ölüdeniz, nas águas cristalinas do Mar Mediterrâneo ou simplesmente num hotel, representam a materialização de uma fantasia que, para aquele homem, de bigode farfalhudo e barriga proeminente, agora com a alma apaziguada e um corpo presente, quase significava a desvinculação do reino dos vivos.

Sob um céu pardacento e uma luz vacilante, deixo o hotel e embrenho-me nas ruas cheias de turistas ingleses, de lojas e restaurantes e, ansioso de solidão e grávido de silêncio, caminho na direcção do mar, que surge diante dos meus olhos como uma janela escancarada para o crepúsculo. Sentado na praia mordida pelo mar, com um copo na mão, observo, recolhido na minha quietude e numa indolência tão doce, aquela gota de ouro candente que não tardará a ser engolida pelas águas e os pequenos barcos que recortam a paisagem, até que a luz se escoe e a escuridão desça sobre a areia húmida.

Aos primeiros alvores do dia seguinte, quando a vida ainda flutua em silêncio, regresso à praia agora deserta e, protegido pela imponência do Monte Baba, que projecta a sua sombra sobre as águas, não resisto à tentação de um passeio a pé junto ao mar.

Uma língua de areia (mais seixos do que areia) estende-se e conduz-me, não sem uma excitação febril, até à lagoa Azul, zona protegida integrada no parque natural onde, de quando em vez, se avistam tartarugas que se passeiam tranquilamente nas águas que contrastam com aquele emaranhado de árvores que decoram as montanhas. Um cenário belo, uma explosão silenciosa a merecer um olhar penetrante antes da chegada dos turistas que a esta hora ainda dormem e curam ressacas da noite anterior.

A meio da manhã, as cadeiras brancas de plástico começam a ser ocupadas, turcos e estrangeiros convivem em admirável comunhão e as crianças podem brincar nas águas tranquilas sem que se justifique uma vigilância apertada. No interior da lagoa Azul, quase fechada pela extensa língua de areia, pequenos barcos a pedal não retiram serenidade ao local e o céu límpido passa agora a ser decorado com as asas multicolores dos parapentes que gozam de uma vista privilegiada quando se lançam do Baba Dag, a quase dois mil metros de altitude.

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