Fugas - Viagens

  • Barcelona com vista Gaudí
    Barcelona com vista Gaudí Rui Gaudêncio
  • O Arco do Triunfo
    O Arco do Triunfo Rui Gaudêncio
  • Gustau Nacarino/Reuters
  • O Hospital de Sant Pau, o maior recinto modernista do mundo
    O Hospital de Sant Pau, o maior recinto modernista do mundo Robert Ramos/Fundación Privada Hospital de Sant Pau
  • Os sinais modernistas de Barcelona são um dos seus maiores cartões de visita
    Os sinais modernistas de Barcelona são um dos seus maiores cartões de visita Adriano Miranda
  • Agora há um grandee mural-beijo para celebrar a liberdade. E destinado a muitas fotos dos turistas
    Agora há um grandee mural-beijo para celebrar a liberdade. E destinado a muitas fotos dos turistas DR
  • Por mais voltas que se dêem, as Ramblas serão sempre passagem obrigatória na cidade
    Por mais voltas que se dêem, as Ramblas serão sempre passagem obrigatória na cidade Rui Gaudêncio
  • Paseig de Gràcia
    Paseig de Gràcia Rui Gaudêncio
  • Uma das paragens obrigatórias dos turistas: o mui concorrido mercado La Boquería
    Uma das paragens obrigatórias dos turistas: o mui concorrido mercado La Boquería Rui Gaudêncio
  • O Born (à esquerda) tornouse um dos bairros da moda há poucos anos. O mercado renovado vai ser um grande centro cultural e de animação
    O Born (à esquerda) tornouse um dos bairros da moda há poucos anos. O mercado renovado vai ser um grande centro cultural e de animação Rui Gaudêncio
  • A bandeira catalã impõe-se por todo o lado
    A bandeira catalã impõe-se por todo o lado Rui Gaudêncio

Continuação: página 7 de 9

Em Barcelona, a liberdade anda nas bocas do mundo

De volta à cidade velha, buscamos com ajuda do telemóvel uma das intervenções do Tricentenário que não terá vida efémera. A poucos minutos da catedral, descobrimos a minúscula e anódina Praça Isidre Nonell. Um muro é agora um mural. El mundo nace en cada beso é a contribuição do artista barcelonês Joan Fontcuberta para as comemorações e para a cidade, já que este mosaico “foto-cerâmico” é permanente. Composto por quatro mil peças, o mural tem de ser visto à distância (a esplanada do Bun Bo Viêtnam é uma boa opção) para se ter a percepção de duas bocas entreabertas, beijando-se. A obra pode considerar-se um projecto colectivo, já que as peças foram compostas por fotografias enviadas por habitantes de Barcelona sob o repto de “um momento de liberdade”. Para Barcelona, a liberdade é um beijo, está visto — e “Barcelona vai converter-se na cidade do beijo”, profetizou o presidente da câmara durante a inauguração. Não por enquanto: poucos são os que passam, menos ainda os que reparam no mural. Mas há quem tire fotografias — só não vimos nenhum beijo.

O recinto modernista da cidade modernista

O sol morde nesta tarde de início de Agosto, por isso procuramos as sombras possíveis sempre ao alcance da voz do nosso guia, Federico. Já teve mais árvores, esta avenida-pátio do antigo Hospital de la Santa Creu i Sant Pau porque o arquitecto, contra a corrente do tempo (início do século XX), fez questão de integrar a natureza no seu complexo, para que os pacientes pudessem usufruir de ar livre, para seu deleite e bem-estar.

Estamos num hospital que foi projectado como “uma cidade dentro da cidade” e concebido no mais puro modernismo catalão pelo mentor do movimento, o arquitecto Lluís Domènech i Montaner. Não tem a projecção ou popularidade de Gaudí mas é o autor da obra-prima que é o Palau de la Música Catalana. Por essa obra, Federico não tem dúvidas em considerá-lo o “grande arquitecto modernista de Barcelona” e aqui no Hospital de San Pau havemos de estar numa sala onde o seu estilo atinge o cume do Palau. Mas isso será no final, no edifício da administração que é a grande fachada do que é agora o Recinto Modernista de Sant Pau; será aí que teremos a visão do que apenas havíamos visto em fotos: a “cidade” vista do alto como uma terra de encantar, com os seus edifícios de tijolo vermelho e janelas neo-góticas ou neo-mudéjar, as suas cúpulas coloridas como bolos extravagantes, a sucessão de chaminés excêntricas, as esculturas profusas, os azulejos como tapeçarias coloridas. É o maior complexo modernista do mundo, ocupando o equivalente a nove quarteirões do Eixample (a ideia era a de que cada paciente tivesse 145 m2), onde está inserido — é Património Mundial da Humanidade desde 1997 e abriu ao público em Março deste ano.

Não é, claro, o único edifício modernista barcelonês incluído na lista da UNESCO, Gaudí, o arquitecto-mor, tem seis, Domènech i Montaner, que foi seu professor, também tem o Palau de la Música. Estamos em território arquitectónico privilegiado, já que o modernismo fez de Barcelona, particularmente do Eixample, a “extensão” da cidade da segunda metade do século XIX, a sua oficina-galeria ao ar livre, desenvolvendo um traço peculiar associado ao renascimento do catalanismo. Isto significa que as tradições e mitologias catalãs, assim como influências árabes, se intrometem numa linguagem muitas vezes simbólica, feita de curvas, tão assimétrica como podem ser as formas orgânicas e botânicas, e com cascadas de ornamentações e cores. Se o estilo não é consensual (há quem o veja como excessivo e ostensivo), é, porém, a imagem de Barcelona que conquista o mundo.

--%>