Fugas - Viagens

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Trás-os-Montes: Quando os veados deixam de ser fantasmas

De onde estamos, por exemplo, encaramos uma clareira onde “costuma haver lutas”, mas a esta hora tudo está tranquilo. Chegamos a ouvir o silêncio, quando o vento cessa e as aves emudecem. É quando já havíamos desistido desta localização que, de repente, tudo muda. Não perto de nós, na encosta onde antes haviam desaparecido as quatro fêmeas. Do pequeno arvoredo emergem, primeiro, cinco fêmeas e depois já temos de nos concentrar para contá-las todas. “Há pouco contei mais, mas eram arbustos”, diz João Marta, da Infotrilhos, parceira nesta escapada. Outras são pedras. 

“Para não confundirmos temos de olhar as orelhas, que se movem a sacudir moscas, ou pela cauda, que é mais clara”, indica Luís. Chegamos a contar 13 fêmeas juntas, “estão à espera deles”. Eles não aparecem – aparece um apenas, facilmente identificável, mesmo ao longe, pela imponência da galhada. Está completa, o que acontece aos seis anos, idade a partir da qual apenas se assiste ao engrossar dos troncos e ao aumento do número das pontas na coroa. Isto apesar de todos os anos os veados passarem pelo desmoque, ou seja, todos os anos perdem as galhadas. Acontece normalmente por volta do equinócio da Primavera (20 ou 21 de Março), altura também do nascimento das crias: “As galhadas caem inteiras, pela roseta, mas passada uma semana os veados já têm um coto”, explica Luís. Não são incomuns as caminhadas durante Abril para “caçar” galhadas, troféus. Em Agosto, estas já estão restauradas, “mas cobertas com veludo”, um tecido irrigado com muitos vasos sanguíneos, que causa incómodo e faz com que os veados raspem as hastes nas árvores para o perder. “A galhada fica como madeira.”

As fêmeas correm, o macho corre atrás, a uma curta distância. Desaparecem outra vez da nossa vista e nós movemo-nos ao seu encontro. Em vão. Vemos apenas as fêmeas desaparecerem para o interior, para além de montes onde não podemos aventurar-nos para não perturbar o ritual. Perdemos o macho. Na espera, ganhamos uma revoada de corvos que passam a crocitar intensamente, mais adiante são grifos que sobrevoam um ponto invisível (“haverá alguma carcaça por aí”), diante de um estranho círculo de terra, amarelo, entre a vegetação (“chamam-lhe o ovni”), onde também já se avistaram lutas de veados. Há algo de pagão neste cenário e é inevitável lembrar a mitologia celta, na qual o veado representa a fecundidade, dos homens mas também das terras.

Tentamos alcançar outro ponto de avistamento regular de veados, mas entramos em zona nuclear de uma alcateia de lobos. Não vemos nenhum e não queremos (nem podemos) perturbar. Desistimos já perto das 11h, o silêncio de bramidos há muito instalado nos montes. Ainda passamos por Rio de Onor (com um salto a Riohonor de Castilla) – “hoje não se passa nada em Rio de Onor”, excepto “o casamento de uma das raparigas em Espanha”. É para lá que está muita gente, por isso o café da associação desta aldeia que ainda preserva algum comunitarismo está nas mãos de quem não sabe tirar um café. “Algum de vocês sabe?” Servimo-nos, portanto.

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