Fugas - Viagens

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Os jovens, os resorts e a foice

Durante a guerra do Vietname, os relatos davam conta de uma cidade de “estradas lamacentas sulcadas por camiões do exército e pessoas a correr à chuva com trouxas, soldados envoltos em ligaduras a vaguear pela lama da monção da cidade destroçada ou a espreitar pelos canos das espingardas das traseiras de camiões sobrecarregados”, escreveu o mesmo Theroux em 1973. “Os movimentos das pessoas tinham uma simultaneidade de angústia” e a “cidade tinha um aspecto castanho-escuro de profanação, as máculas dos ataques entre charcos a crescer”. Como se isso não bastasse, Hué também foi violentamente destruída por um incêndio, mas foi reconstruída várias vezes numa espécie de obrigação de Sísifo. À aristocracia, a cidade juntou-lhe a tenacidade.

 

Hoi An, a iluminada

A mulher move-se ligeiramente curvada sob o peso da don ganh, a vara comprida em cujas extremidades transporta dois cestos com cachos de bananas que tenta vender a quem passa nas margens do rio Hoài. O mais natural é que alguém a faça parar para registar um dos clichés mais típicos do país: uma mulher, um chapéu cónico e o don ganh. Apesar do peso que lhe causa profundas deformações nos ombros, a mulher posa para o turista. Ao lado, uma mulher passeia o seu ao dai, calças e blusa comprida, roupa tradicional feminina, e posa, com glamour, como uma estrela de cinema asiático num Wong Kar-Wai. O álbum de fotografias é uma obsessão para os noivos — é mais importante que o próprio casamento. Ambas preservam uma cultura ameaçada por uma sucessão histórica de confrontos violentos.

Mas, afinal, Hoi An sobreviveu a tudo, quase incólume, com a sua bela ponte japonesa em madeira, que data do século XVI e que foi reconstruída várias vezes, o monumento mais emblemático da cidade. Mas também com os seus vários pagodes e templos em homenagem de Quan Am, a deusa da misericórdia, a popular lady Buda, cuja estátua e veneração são generalizadas — dois terços da população é budista. Ou as suas ruas estreitas e repletas de comércio dedicadas ao turismo: lanternas de papel ou de seda, em forma de balão, t-shirts estampadas com o rosto de Ho Chin Minh — cuja biografia oficial publicada pela Comissão de Estudo do Partido Comunista do Vietname classifica como o primeiro comunista do país e um dos fundadores do partido comunista francês — ou a estrela da bandeira nacional, posters do comboio Hanói-Saigão ou, claro, os chapéus cónicos. Em suma, os souvenirs expectáveis. A serenidade de Hoi An contrasta com o movimento das compridas avenidas das cidades reconstruídas, como Da Nang ou Nha Trang, que crescem como o corpo de adolescentes.

Na parte central da cidade e nas duas margens do Thu Bon, o silêncio só é interrompido pela suave música das esplanadas ou pelo leve torpor de um motociclo, como se tratasse de um insecto tranquilo e nada ameaçador. Atravessar uma rua não tem a complexidade e riscos da travessia numa das avenidas de Da Nang, nas quais ninguém pára. Debaixo da ponte, deitado num barco, há quem encontre uma silenciosa protecção para o sol.

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