A mescla de culturas vislumbra-se nas calças de ganga que espreitam por baixo das túnicas brancas e azuis dos jogadores de hóquei. Empunhando pedaços de madeira, os homens batem na bola feita de fio negro (e às vezes acertam nos pés descalços), levantando areia e o entusiasmo do público, enquanto se defrontam. O resultado é de 3-0 para os azuis. Não se sabe quanto tempo durou o jogo ou quem determina que está na hora de ele terminar, mas ao fim de vários minutos, quando a bola já se começa a desfazer, a festa acaba numa roda composta pelos jogadores das duas equipas que, ajoelhados na areia, entoam cânticos, embalados por palmas. Em breve estão rodeados por dezenas de espectadores, que se deixam seduzir por aquele entoar hipnótico por muito tempo.
O sol começa a pôr-se quando a celebração termina e, no palco, já se ensaia para o espectáculo da noite. Durante os três dias do festival houve sons de vários cantos do mundo a passar por ali — a música tuaregue dos Nabil Baly Othmani (Argélia), o teatro dançado de Géraldine Nalini (Índia), a voz europeia de Remedios Cortés (Espanha), os cantos femininos de Mint Aichata (Marrocos) ou a sonoridade única dos Atri N’Assouf, mistura de músicos tuaregues e franceses.
A aldeia em peso parece deslocar-se para junto do palco durante a noite. Alguns homens não resistem a saltar para a frente do palco, dançando, em movimentos lentos ou saltitantes, e sendo afastados, de forma quase carinhosa, pela equipa técnica, que não quer distracções entre o palco e o público. Na manhã seguinte, M’hamid está, de novo, na sua pacatez habitual. Os nómadas podem ter desaparecido quase completamente do país — há quem diga que já não existem, há quem defenda que passaram de quase 50% da população para menos de 2% —, mas, num instante, o seu estilo de vida é recriado. “Acreditem que os nómadas que se sedentarizaram têm a nostalgia da vida que perderam, sentem a sua falta a toda a hora e, se pudessem, regressavam imediatamente”, diz Noureddine Bougrab.
Nas imediações de M’hamid, depois de um passeio de dromedário, somos deixados junto a uma tenda onde se prepara o tradicional chá do deserto, com muita espuma. A cerimónia de preparação, explica Noureddine, deve ser prolongada o mais possível, porque era durante esses momentos de pausa entre as tribos do deserto que se trocavam informações preciosas. Que os nómadas partilhavam experiências e conhecimentos. Enquanto o chá é vertido num copo e depois noutro, e ainda noutro, criando mais e mais espuma, chegam à tenda dois antigos nómadas, acompanhados por familiares. Dois velhos de faces enrugadas que carregam a nostalgia de que fala o director do festival. Hammadi Wed Hmidana, o poeta da sua tribo, o guardador de histórias, e Lahcen Weld Lahcen, o chefe do grupo. Ali, a poucas centenas de metros da M’hamid, estão apenas a encenar o que já foi a sua vida. Os poemas de Hmidana estão confinados “à nostalgia e tudo o que desapareceu”. “É como se revivesse toda a vida que passou”, traduz Noredinne.